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CÂMARA DE MARIANA
Foto de Erenildo Euzébio
Erenildo Euzébio erenildoeuzebio1@gmail.com

Erenildo Euzebio é gestor público e liderança social, com atuação nas áreas de habitação de interesse social, direito à cidade, regularização fundiária, mobilidade urbana e desenvolvimento comunitário. Possui experiência na articulação entre poder público, organizações sociais, profissionais e comunidades para a construção de projetos e políticas públicas. Em seus textos, aborda economia, trabalho, território, desigualdades e participação popular a partir de uma perspectiva prática e comprometida com a transformação social. Acredita que o conhecimento técnico, quando aliado à organização coletiva, pode ampliar direitos e criar oportunidades.

A quem interessa a sua raiva?

Quarto artigo da série “Desesperança: uma tecnologia social maligna”

Publicado em 02/10/2026 às 17:00

Nenhuma sociedade permanece desesperançada em silêncio por muito tempo. Quando as causas de uma frustração não são compreendidas, sempre aparece alguém disposto a oferecer uma explicação. Normalmente é uma explicação simples, indignada e acompanhada de um culpado facilmente reconhecível. O mundo pode ser complexo, mas o panfleto prefere trabalhar com elenco reduzido.

Chamo aqui de tecnologia social perversa um mecanismo histórico: recolher sofrimentos legítimos, separá-los das condições que os produziram e direcioná-los contra alvos convenientes. A crise não precisa ser inventada. Basta disputar o significado dela.

A lógica é conhecida: dividir para conquistar. Pessoas atingidas por problemas semelhantes são levadas a enxergar umas às outras como ameaça. Primeiro, diz-se que o país perdeu o rumo. Depois, descreve-se um passado de ordem e prosperidade, embora poucos o tenham vivido da mesma maneira. Por fim, aponta-se quem estaria impedindo sua volta. Quem oferece o inimigo costuma oferecer também a si próprio como solução.

A Itália depois da Primeira Guerra Mundial mostra esse processo com uma nitidez desconfortável. O país enfrentava dificuldades econômicas, governos frágeis e conflitos intensos entre trabalhadores e proprietários. Operários reivindicavam melhores condições; camponeses se organizavam; setores médios temiam perder posição. Eram demandas, medos e interesses diferentes, nascidos de uma sociedade em transformação.

O fascismo apresentou-se como resposta à desordem. Mussolini e seus seguidores deram uma forma política à insegurança de parte da população: prometeram grandeza nacional e identificaram socialistas, sindicatos e organizações de trabalhadores como inimigos da pátria. A reivindicação por trabalho e estabilidade foi misturada ao medo de uma revolução. Quem lutava por direitos passou a ser apresentado como ameaça à vida dos demais.

A operação não ficou no discurso. Esquadras fascistas atacaram organizações populares na cidade e no campo. O movimento cresceu em meio à reação de setores proprietários às conquistas dos trabalhadores. Quando a violência já estava instalada, parte das elites e das instituições tratou a chegada dos fascistas ao governo como um modo de recuperar a ordem. O resultado foi entregar o Estado a um movimento que havia aprendido a chamar seus adversários de inimigos da nação.[1][2]

Dividir, nesse caso, não significava apenas provocar brigas. Significava impedir que reivindicações por trabalho, terra e direitos se transformassem em força coletiva. O fascismo ofereceu pertencimento a quem se sentia impotente, mas deu uma direção à força recuperada: combater as organizações que poderiam disputar as condições de vida da população.

Na Alemanha, a Grande Depressão ampliou o desemprego e a descrença nas instituições. Os nazistas exploraram essa crise, atacaram a democracia como incapaz de responder a ela e atribuíram falsamente aos judeus a responsabilidade por problemas do país. A perda de segurança foi transformada em perseguição. Não havia relação real entre a vida difícil de uma família alemã e a culpa que a propaganda lançava sobre seus vizinhos judeus. Havia uma narrativa construída para fazer essa relação parecer evidente.[3]

A América do Sul também conhece o uso político do medo. No Chile, a eleição de Salvador Allende abriu uma disputa profunda sobre a distribuição da riqueza, a propriedade e o futuro do país. Seu governo enfrentou conflitos e dificuldades econômicas reais. Isso não tornou inevitável o golpe de 1973.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, baseada no exame da imprensa chilena da época, mostra como o jornal El Mercurio participou da disputa política contra o governo Allende. Documentos divulgados nos Estados Unidos registram, por sua vez, o financiamento clandestino de partidos opositores e meios de comunicação, além de operações de propaganda conduzidas pela CIA. O jornal recebeu recursos da agência. Segundo uma avaliação interna citada na investigação do Senado norte-americano, a imprensa apoiada pela CIA ajudou a preparar o ambiente para o golpe.[4][5]

Esses documentos não reduzem todos os conflitos chilenos a uma conspiração estrangeira. Revelam algo mais preciso: havia uma atuação organizada para orientar a percepção pública da crise e enfraquecer uma saída democrática. A população vivia problemas concretos; outros disputavam a resposta que ela daria a esses problemas.

No Brasil, antes do golpe de 1964, a defesa de reformas sociais foi associada à ameaça de uma subversão interna. Os golpistas afirmavam agir para proteger a ordem e combater o comunismo. A figura do “inimigo interno” permitiu tratar brasileiros com projetos políticos diferentes como ameaças ao próprio país. Depois do golpe, a promessa de proteger a liberdade deu lugar a um regime autoritário.[6]

Itália, Alemanha, Chile e Brasil não viveram a mesma história. Seria um erro apagar suas diferenças ou afirmar que toda pessoa angustiada se torna autoritária. O que esses casos permitem observar é uma sequência: um sofrimento social encontra uma explicação que seleciona culpados; essa explicação ganha organização, dinheiro, propaganda ou força; e a solução anunciada exige que parte da sociedade perca voz e direitos.

É justamente aí que a história deixa de ser apenas passado. Essa tecnologia social não brota espontaneamente da cabeça de uma população irritada. Ela precisa de decisões econômicas que produzem insegurança, de instituições que naturalizam essa insegurança e de atores capazes de dar a ela um destino político. Não é necessário que todos se reúnam numa sala para planejar o resultado. Interesses distintos podem se encontrar na mesma operação: conservar privilégios, enfraquecer organizações coletivas e impedir que o descontentamento alcance quem decide.

Em nosso tempo, o neoliberalismo oferece um terreno particularmente fértil para isso. Quando a competição passa a organizar até a maneira como cada pessoa enxerga a própria vida, perder o emprego parece falha pessoal; não conseguir pagar o aluguel parece falta de esforço; adoecer sob pressão parece incapacidade de se adaptar. O risco é distribuído entre milhões de indivíduos, enquanto as decisões sobre salários, proteção social e serviços públicos continuam concentradas. Pesquisas brasileiras descrevem essa transferência de responsabilidade e o enfraquecimento dos vínculos de solidariedade que poderiam transformá-la em questão política.[7][8]

O resultado não é somente a escassez. É a solidão diante dela. A pessoa trabalha mais, calcula cada despesa, teme o próximo mês e ainda ouve que precisa se reinventar. Se protesta, pode ser chamada de invejosa ou incapaz. Se procura outro responsável, encontra um repertório pronto de inimigos próximos: o beneficiário de uma política social, o funcionário público, o migrante, o movimento que reivindica direitos. A frustração encontra um rosto; a estrutura que a produz conserva o anonimato.

Isso se torna visível no trabalho mediado por aplicativos. A promessa de autonomia convive, em muitos casos, com jornadas longas, renda baixa e decisões tomadas por sistemas pouco transparentes. A Organização Internacional do Trabalho descreve a gestão algorítmica que distribui tarefas, avalia pessoas e acompanha seu desempenho. Quando trabalhadores disputam entre si a próxima corrida, é fácil atribuir a dificuldade ao colega que aceita menos. É bem mais difícil enxergar e negociar as regras que organizam a disputa.[9]

Há também uma infraestrutura nova para fazer circular as explicações prontas. A plataforma digital não inventou o preconceito nem a mentira política. Mas mensagens dirigidas a públicos específicos, compartilhadas em velocidade e medidas por sua capacidade de prender atenção podem fazer uma acusação parecer onipresente. A UNESCO trata a desinformação, o discurso de ódio e as teorias da conspiração como problemas de governança dessas plataformas. Nesse ambiente, indignação pode virar audiência, dados e receita, enquanto grupos políticos a convertem em apoio.[10]

Os sinais estão diante de nós quando uma dificuldade real recebe uma resposta que exige menos direitos para outra pessoa. Quando se pede sacrifício em nome de uma necessidade econômica apresentada como inevitável, mas se proíbe discutir quem ganha com ela. Quando trabalhadores e usuários de serviços públicos são estimulados a se enfrentar pela falta de recursos, em vez de exigir explicações sobre prioridades, financiamento e decisões. São mecanismos reconhecíveis, não uma prova de que todo conflito de hoje repetirá o desfecho da Itália, da Alemanha ou do Chile.

Também seria um erro imaginar um manipulador único, capaz de controlar cada reação. Há propaganda deliberada, escolhas políticas, modelos de negócio e preconceitos antigos que se reforçam sem serem idênticos. Por isso, chamar a desesperança de tecnologia social não dispensa a investigação: obriga a perguntar quem financia uma mensagem, quais regras ela protege, que instituições a amplificam e quais soluções desaparecem quando aceitamos o inimigo que ela oferece.

Há uma pergunta simples que ajuda a interromper essa sequência: o inimigo apresentado a você tem poder para produzir o problema que você enfrenta?

Ele decidiu seu salário? Organizou a falta de moradia? Reduziu sua capacidade de planejar o futuro? Ou foi colocado ao alcance da sua raiva enquanto decisões muito mais poderosas permaneciam fora de vista?

A indignação pode ser o começo de uma transformação. Para isso, precisa conservar a capacidade de investigar. Quando alguém exige que você abandone as perguntas e aceite imediatamente um culpado, talvez esteja menos interessado em resolver seu sofrimento do que em escolher o destino da sua revolta.

Primeiro, retiram das pessoas a confiança no futuro. Depois, oferecem-lhes alguém a quem odiar pelo futuro perdido. O truque funciona porque o inimigo apresentado é sempre mais visível do que as relações de poder que realmente organizam a desigualdade.

Referências

[1] “Il biennio nero: fascismo, antifascismo e violência política”. Tempo Social, 2019.
https://www.scielo.br/j/ts/a/ztMfLHRmtbg4tNRjsXz5rhm/?format=html&lang=pt

[2] “Fascismo: a face extremista da direita na luta de classes”. Revista Katálysis.
https://www.scielo.br/j/rk/a/rVFfHdsKNqHpdgwz5JD4NmN/

[3] “Adolf Hitler e a Ascensão Nazista ao Poder — 1918–1933”. Enciclopédia do Holocausto, Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. Versão em português.
https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-nazi-rise-to-power

[4] SANTOS, Emmanuel dos. Imprensa e poder político no Chile: o governo da Unidade Popular e os jornais El Mercurio e La Nación (1970–1973). Dissertação de mestrado, UFMG, 2018.
https://repositorio.ufmg.br/server/api/core/bitstreams/43a703e0-2159-4bbf-af8a-efb2a218b12c/content

[5] Senado dos Estados Unidos. Covert Action in Chile, 1963–1973. Documento original em inglês, referência complementar.
https://www.intelligence.senate.gov/wp-content/uploads/2024/08/sites-default-files-94chile.pdf

[6] “O golpe de 1964 e a instauração do regime militar”. CPDOC/FGV.
https://cpdoc.fgv.br/artigos/golpe-1964

[7] “Neoliberalismo, sofrimento e indiferença”. Revista Katálysis, 2022.
https://www.scielo.br/j/rk/a/8KY5H7rgCP9nPzZjbWRsB8q/?lang=pt

[8] “Neoliberalismo autoritário no Brasil”. Caderno CRH, 2021.
https://www.scielo.br/j/ccrh/a/mZ5TYngTCBpHz8gZ7g9kJPC/?lang=pt

[9] Organização Internacional do Trabalho. “Plataformas digitais: um futuro do trabalho com oportunidades e desafios para a América Latina e o Caribe”, 2021.
https://www.ilo.org/pt-pt/resource/news/plataformas-digitais-um-futuro-do-trabalho-com-oportunidades-e-desafios

[10] UNESCO. Diretrizes para a governança das plataformas digitais. Versão em português, 2023.
https://www.unesco.org/pt/articles/diretrizes-para-governanca-das-plataformas-digitais?hub=370

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