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Victor Pinto vdinizpinto@gmail.com

Victor Diniz Pinto é biólogo, mestre e doutor em Ecologia, pesquisador e gestor público. Atua na interface entre ciência, políticas públicas, biodiversidade e direitos LGBT+. Sua produção acadêmica e de divulgação científica concentra-se nas relações entre natureza, conhecimento, comunicação e poder. É autor de artigos científicos nacionais e internacionais e escreve sobre os usos políticos da ciência no debate público.

Victor Pinto | Quem decide o que é natural?

Publicado em 26/09/2026 às 21:18

Vivemos num tempo em que humanidade e natureza parecem cada vez mais distantes. Ao mesmo tempo, o contato com o “natural” tornou-se valioso e, às vezes, até um diferencial de estilo de vida. Buscamos produtos naturais, alimentos naturais, ingredientes naturais e maneiras mais “naturais” de viver. Somos atraídos por todas essas Coisas Naturais (salve, Marina Sena), numa espécie de ânsia moderna por nos reconectarmos com a natureza.

E talvez por isso poucas palavras sejam tão eficientes para encerrar uma discussão quanto “natural”.

Dizer que alguma coisa é natural produz uma sensação de evidência, pureza e até superioridade. Se é natural, parece existir antes de nós, independentemente de nossas opiniões, crenças ou disputas políticas.A natureza, afinal, não vota, não milita e não participa de debates públicos. Ela simplesmente existe.

Não há escolha. Não há dúvida. É natural. Mas será mesmo tão simples?

Ao longo da história, sociedades inteiras foram organizadas a partir de disputas sobre quem tinha autoridade para decidir o que era natural.

Isso não significa que a natureza seja uma invenção política. Muito menos que fatos biológicos dependam da opinião de quem governa. Significa algo diferente e talvez mais incômodo: determinadas interpretações da natureza também podem organizar a vida social, justificar hierarquias ou legitimar formas de exploração.

Quer um triste exemplo?

No século XIX, correntes do racismo científico buscaram transformar hierarquias sociais em diferenças naturais entre seres humanos. Depois, a eugenia levou essa lógica à defesa de políticas de controle reprodutivo, esterilização e segregação. No nazismo, concepções deturpadas e racializadas da biologia foram incorporadas a um projeto político de perseguição e extermínio.

A chamada “Árvore da Eugenia”, de Harry H. Laughlin, apresentava a eugenia como um campo alimentado por diferentes áreas do conhecimento. A imagem ajuda a mostrar como ideias de hierarquia e controle da vida buscaram legitimidade na linguagem científica no início do século XX.
Fonte: Wellcome Collection. Harry H. Laughlin, “Eugenics Tree”. Public Domain Mark.

Seria confortável imaginar que isso ficou no passado. Mas não ficou!

Apenas as formas mudaram. Hoje, aquilo que é apresentado como “natural” continua sendo mobilizado para dar aparência de inevitabilidade a escolhas políticas e sociais.

Esse uso político daquilo que chamamos de “natural” aparece com bastante força em setores da extrema direita contemporânea. Pense nas discussões sobre gênero e sexualidade.

Quando alguém afirma que determinada identidade, comportamento ou forma de família não pode existir porque “a biologia não permite” ou porque “não é natural”, não está apenas descrevendo o funcionamento de um organismo. Está atribuindo a uma versão distorcida da biologia o poder de estabelecer quais corpos, relações e famílias seriam legítimos.

Pesquisas sobre movimentos antitrans mostram que referências científicas também podem ser selecionadas ou retiradas de contexto para apresentar posições discriminatórias como se fossem simplesmente conclusões da biologia.

Agora olhe comigo para uma paisagem.

Mina de Carajás, no Pará, vista pelo sensor ASTER em 2017. A imagem de satélite evidencia como a exploração mineral transforma materialmente a paisagem e torna visíveis diferentes formas de compreender e utilizar um território.
Fonte: NASA/METI/AIST/Japan Space Systems e U.S./Japan ASTER Science Team, via Wikimedia Commons. Imagem ASTER adquirida em 19 de junho de 2017.

Uma montanha pode ser formação geológica, habitat de uma espécie rara, território de povos tradicionais, patrimônio ou reserva mineral a ser explorada. Uma floresta pode ser ecossistema, estoque de carbono, fonte de madeira, área produtiva para a agricultura ou lar de milhares de espécies.

A montanha não muda de lugar porque mudamos a palavra utilizada para descrevê-la. A floresta continua ali.

Mas a forma como uma paisagem é descrita pode mudar radicalmente aquilo que estamos dispostos a fazer com ela.

Se uma montanha aparece principalmente como reserva mineral, sua exploração pode parecer quase inevitável. Se a mesma montanha é reconhecida pela biodiversidade, pela água que produz, pela história que carrega ou pelas comunidades que dependem dela, outras perguntas passam a existir.

O curioso é que decisões profundamente políticas muitas vezes tentam se apresentar justamente como se não fossem escolhas.

Explorar passa a ser “desenvolvimento”. Conservar vira “atraso”. Determinadas formas de família são chamadas de “naturais”, enquanto outras são apresentadas como ameaça a uma suposta ordem biológica.

No debate ambiental brasileiro, essa disputa assume outra forma. Estudos sobre o bolsonarismo mostram como problemas ambientais foram negados ou minimizados ao mesmo tempo que agendas ligadas ao agronegócio e à exploração econômica do território ganharam centralidade política.

Não estou dizendo que gênero, conservação e exploração ambiental sejam a mesma coisa. Não são.

O que me interessa é outra pergunta.

Quantas vezes aquilo que chamamos de “natural” serve também para fazer uma escolha política parecer inevitável?

Porque, quando uma determinada ordem é apresentada como natural, fica muito mais difícil perceber que alguém escolheu defendê-la.

Há um mundo material diante de nós. Organismos nascem, adoecem, evoluem e morrem. Ecossistemas respondem às transformações ambientais. Vírus se propagam. E montanhas podem virar um mar de lama.

Mas reconhecer a existência desse mundo não nos livra da política.

Porque alguém ainda decidirá quais corpos serão considerados normais. Quais evidências serão levadas a sério. Qual floresta será conservada. Qual montanha será minerada. Quais riscos serão considerados aceitáveis. E quais conhecimentos terão força suficiente para interferir nessas decisões.

É nesse encontro entre vida, ciência e poder que esta coluna pretende ficar.

Há, evidentemente, muitas coisas naturais.

Mas há também muitas coisas que aprendemos a chamar assim.

Por isso, da próxima vez que alguém disser que alguma coisa é “natural”, talvez valha fazer uma pergunta antes de aceitar que a discussão terminou:

natural segundo quem?

Ou, melhor:

quem tem o poder de decidir o que é natural?

E aí sim, quem sabe, a gente consiga continuar vivendo “o jeito e o frescor das coisas naturais”.

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