Erenildo Euzebio é gestor público e liderança social, com atuação nas áreas de habitação de interesse social, direito à cidade, regularização fundiária, mobilidade urbana e desenvolvimento comunitário. Possui experiência na articulação entre poder público, organizações sociais, profissionais e comunidades para a construção de projetos e políticas públicas. Em seus textos, aborda economia, trabalho, território, desigualdades e participação popular a partir de uma perspectiva prática e comprometida com a transformação social. Acredita que o conhecimento técnico, quando aliado à organização coletiva, pode ampliar direitos e criar oportunidades.
Setembro Amarelo: quando a falta de futuro adoece o presente
Terceiro artigo da série “Desesperança: uma tecnologia social maligna”
De todas as passagens da Bíblia, esta é uma das minhas favoritas e mais úteis no dia a dia. Nunca a compreendi como um convite à passividade ou ao abandono do futuro, mas como uma advertência contra o sofrimento antecipado: não permitir que os fantasmas do amanhã devorem inteiramente o presente.
Há, porém, uma diferença entre sofrer por um futuro imaginário e angustiar-se diante de um futuro materialmente interditado.
É relativamente mais fácil não se deixar consumir pelo amanhã quando o presente oferece algum chão. Quando existe uma estrutura econômica montada para dar errado, a história é outra. Quando o salário termina antes do mês, o emprego pode desaparecer a qualquer instante, o diploma não encontra profissão e qualquer doença, acidente ou despesa inesperada ameaça desmontar uma vida inteira.
Nesse caso, o amanhã deixa de ser apenas uma abstração produzida pela ansiedade. Ele chega antecipadamente, na forma de dívida, instabilidade, trabalho precário e projetos sucessivamente adiados.
A saúde mental não existe fora da história.
Durante parte do século XX, embora de maneira profundamente desigual, o Brasil conseguiu produzir certa expectativa de progresso entre gerações. O operário imaginava o filho técnico; o trabalhador rural, o filho professor; a empregada doméstica, a filha enfermeira. Nem todos atravessavam essa ponte, evidentemente, mas ela existia como horizonte social. Havia a percepção de que estudo, trabalho e tempo poderiam conduzir a uma vida um pouco mais segura. Até mesmo o sentido da luta apontava para a transformação; nas eleições de 1989, todos os presidenciáveis tinham em seu programa de governo a reforma agrária — a mesma coisa em 1994. Gradativamente, essa temática praticamente desapareceu do debate político, assim como a reforma urbana e demais demandas históricas. Lutamos muito mais para não perder o pouco que temos; avançar saiu do horizonte.
Nas últimas quatro décadas, na esteira de um umbral geopolítico e ideológico, perdemos densidade produtiva, enfraquecemos cadeias industriais, reduzimos a capacidade pública de planejamento e substituímos parte dos empregos estáveis por ocupações fragmentadas. O trabalho não desapareceu. Em muitos casos, tornou-se mais intenso, mais inseguro e menos capaz de organizar a vida.
A pessoa trabalha, mas não consegue planejar. Estuda, mas não encontra onde aplicar o que aprendeu. Aumenta a jornada, mas continua sem acumular proteção. Troca de ocupação, faz cursos, abre cadastro em plataformas, aceita contratos temporários e aprende a chamar instabilidade de flexibilidade.
Essa mudança não altera apenas a renda. Altera a experiência do tempo. Quando não se consegue imaginar onde estará daqui a seis meses, decisões aparentemente simples — sair da casa dos pais, ter filhos, financiar uma moradia, cuidar da saúde ou permanecer na própria cidade — adquirem o peso de apostas perigosas – como qualquer aposta. O futuro deixa de orientar o presente e passa a ameaçá-lo.
Os números ajudam a dimensionar essa contradicção. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, em 2025, apesar da redução do desemprego, 38,1% da população ocupada brasileira ainda trabalhava na informalidade. No mesmo ano, de acordo com o módulo Educação da pesquisa, 8,2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos não estavam ocupados, não estudavam nem frequentavam cursos de qualificação profissional. O número diminuiu em relação aos anos anteriores, o que deve ser reconhecido, mas ainda corresponde à população de um país inteiro vivendo à margem das principais instituições de integração social.
Quais os efeitos desse desastre na saúde mental das pessoas?
Os indicadores de saúde mental acompanham esse estreitamento dos horizontes. Em estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Epidemiologia, Oliveira e colaboradores analisaram dados das Pesquisas Nacionais de Saúde de 2013 e 2019 e constataram que a prevalência de sintomas depressivos entre brasileiros de 18 a 24 anos passou de 5,6% para 10,9%. Entre aqueles de 18 a 20 anos, o índice subiu de 4,6% para 12,4%. O crescimento atingiu com maior intensidade as mulheres, os jovens de menor renda e escolaridade e os moradores de capitais e regiões metropolitanas — grupos mais expostos às diferentes formas de vulnerabilidade social.¹
Não é apenas o dinheiro que falta. Faltam previsibilidade, pertencimento, reconhecimento e domínio sobre a própria vida.
Em Pele negra, máscaras brancas, publicado em 1952, Frantz Fanon utiliza o conceito de sociogênese para enfrentar interpretações que procuravam explicar o sofrimento exclusivamente pela constituição biológica ou pela biografia privada. Certas feridas, demonstra Fanon, são produzidas no encontro entre a pessoa e uma ordem social que a inferioriza, desumaniza ou impede de se reconhecer plenamente como sujeito.
Em Os condenados da terra, especialmente no capítulo “Guerra colonial e perturbações mentais”, Fanon aprofunda essa relação entre dominação histórica, violência e adoecimento psíquico. A sociedade não permanece do lado de fora do consultório. Ela atravessa a linguagem, o corpo, a autoestima e a própria maneira como alguém interpreta o seu fracasso.
Essa chave ajuda a compreender um país no qual milhões de pessoas vivem experiências semelhantes, mas chegam ao sofrimento acreditando que fracassaram sozinhas.
É nesse ponto que a noção de reificação se torna particularmente atual. György Lukács desenvolveu esse conceito no ensaio “A reificação e a consciência do proletariado”, parte de História e consciência de classe, publicado em 1923. Relações criadas historicamente pelos seres humanos passam a aparecer como coisas naturais, independentes da vontade e impossíveis de modificar.
O “mercado” adquire vida própria: exige, pune, seleciona, descarta e recompensa. Fábricas fecham, profissões desaparecem, salários perdem valor e direitos são reduzidos como se estivéssemos diante de fenômenos meteorológicos. Aquilo que resulta de decisões econômicas e políticas apresenta-se como uma lei da natureza.
A reificação não transforma apenas relações sociais em coisas. Transforma também pessoas em unidades mensuráveis: produtividade, custo, currículo, desempenho e disponibilidade. A vida concreta precisa caber em indicadores que nunca consideram o cansaço, o medo ou o tempo perdido no transporte. Quando alguém deixa de atender às exigências dessa máquina, o problema parece estar na pessoa, não no mecanismo que a tornou descartável – se alguém lembrou de relações escravocratas não vai passar frio esta noite, está coberto de razão.
Em Sociedade do cansaço, publicado originalmente em 2010, Byung-Chul Han descreve o sujeito de desempenho: alguém que já não precisa receber ordens permanentes de um chefe porque transporta para dentro de si o imperativo da produtividade. Ele se cobra, vigia e explora acreditando agir livremente. Quando não alcança o desempenho esperado, não identifica uma contradição social. Acusa a própria disciplina, inteligência ou força de vontade – é a inversão do Homo faber de Marx.
Han desenvolve essa análise em Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, de 2014, mostrando como a dominação contemporânea procura converter a autoexploração em liberdade, iniciativa e realização pessoal.
No Brasil, entretanto, essa sociedade do desempenho assume uma forma particular. Aqui, muitas vezes, a exaustão não nasce do excesso de oportunidades, mas da escassez delas. O trabalhador de aplicativo não corre porque deseja realizar todo o seu potencial empresarial. Corre porque a prestação vence. A enfermeira não acumula plantões para construir uma versão extraordinária de si mesma. Acumula porque um único salário já não sustenta a casa. O pequeno empreendedor não raramente é apenas um desempregado que precisou adquirir uma máquina de cartão.
Han ajuda a compreender a forma subjetiva do cansaço. A estrutura econômica brasileira explica por que tanta gente precisa vivê-la como sobrevivência.
Produzir mais, consumir mais, aperfeiçoar-se mais, tornar-se mais competitivo: sempre existe alguma coisa a conquistar antes que a vida possa finalmente começar. Tá, mas em qual estrutura produtiva? Onde estão as fábricas e redes de serviços empresariais complexos? Onde estão as oportunidades? E o futuro, onde está? Isso tudo adoece ou não? Esse adoecimento é bom ou ruim para a indústria farmacêutica, de autoajuda e empresas de telemedicina?
Alguém aí acompanhou as propostas do Augusto Cury?
A crueldade está em exigir otimismo de quem teve os instrumentos materiais da esperança retirados.
A desesperança, nesse sentido, não é apenas uma consequência. Ela também funciona como mecanismo de disciplina. Quem deixa de acreditar no futuro reduz expectativas, abandona projetos e aceita condições que antes consideraria intoleráveis. Uma população exausta encontra forças para pagar a próxima conta, mas raramente conserva tempo e energia para perguntar por que sua vida se transformou numa sucessão de emergências.
Isso não significa que todo sofrimento psíquico seja causado pela economia. Depressão, ansiedade e outros transtornos possuem dimensões biológicas, familiares, afetivas e singulares. Terapia, acompanhamento médico, medicamentos quando indicados e redes de apoio salvam vidas. Negar isso seria tão irresponsável quanto imaginar que esses recursos, isoladamente, possam reparar uma sociedade que produz insegurança em escala industrial.
O Setembro Amarelo precisa falar sobre acolhimento, prevenção e cuidado. Mas precisa também perguntar que condições materiais estamos oferecendo para que as pessoas desejem continuar vivendo.
Não se trata de receitar emprego no lugar de tratamento psicológico. Trata-se de reconhecer que não existe política séria de saúde mental sem trabalho digno, moradia, renda, tempo, cultura, convivência, proteção social e possibilidade concreta de planejar a vida. Um país não pode destruir sistematicamente os caminhos para o futuro e depois tratar a angústia coletiva apenas como desequilíbrio individual.
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