Poucas coisas são tão íntimas quanto a fé. Para milhões de brasileiros, uma imagem religiosa, uma igreja, uma romaria ou uma oração carregam histórias familiares, afetos, esperança e identidade. Por isso, independentemente da religião que cada um professe — ou mesmo do direito legítimo de não professar nenhuma —, o respeito aos símbolos religiosos precisa constituir um princípio básico de convivência em uma sociedade democrática. O problema começa quando aquilo que deveria pertencer ao campo da consciência e da liberdade individual é transformado em arma de uma disputa política.

A recente controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostra exatamente os perigos desse caminho. Circulou nas redes sociais a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Ao responder ao caso, o candidato a presidente do PL acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de colaborarem na disseminação da informação, acusação que a própria CNBB rejeitou publicamente. Quando um postulante à presidência do país age dessa forma, nota-se seu visível despreparo para ocupar a cadeira mais importante da nação.
Nossa Senhora Aparecida ultrapassou há muito tempo os limites estritamente religiosos do catolicismo. Sua imagem está profundamente incorporada à formação histórica e cultural brasileira. A devoção atravessa gerações, regiões e classes sociais, mobilizando todos os anos milhões de pessoas. Respeitá-la não significa obrigar ninguém a professar a fé católica. Significa reconhecer que determinados símbolos fazem parte da história de um povo e merecem o mesmo respeito que reivindicamos para símbolos das religiões evangélicas, de matriz africana, indígenas, islâmicas, judaicas e tantas outras presentes no Brasil.
É justamente aí que o princípio do Estado laico precisa ser corretamente compreendido. Laicidade não significa combater religiões nem apagar suas manifestações da sociedade. Significa assegurar que nenhuma religião controle este Estado e, simultaneamente, garantir que todas possam existir livremente. Um Estado verdadeiramente laico protege católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos e também aqueles que não possuem religião. A liberdade religiosa somente existe plenamente quando vale para todos.
Por isso também é preocupante quando candidatos procuram apresentar determinada profissão de fé como atributo político ou associar a própria candidatura a uma missão religiosa. Em agosto, Flávio Bolsonaro declarou que, caso chegasse à Presidência, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A frase pode expressar uma convicção pessoal legítima, mas adquire significado diferente quando pronunciada por alguém que disputa a chefia de um Estado constitucionalmente laico. O presidente da República governa para mais de 200 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que compartilham sua crença.
A história brasileira deveria ter nos ensinado que fé e poder precisam estabelecer limites claros entre si. A religião pode contribuir enormemente para a vida pública, como demonstram as pastorais sociais, comunidades de base, organizações de assistência, movimentos de solidariedade e inúmeras iniciativas religiosas de defesa dos pobres e dos direitos humanos. Mas existe uma diferença enorme entre religiosos participarem democraticamente da sociedade e a utilização da religião como mecanismo de legitimação do poder político.
Também não podemos admitir seletividade nesse debate. Quem exige respeito para sua Bíblia deve respeitar a imagem de Nossa Senhora. Quem exige respeito para Nossa Senhora precisa defender o mesmo direito para um terreiro de candomblé. Quem reivindica liberdade para construir uma igreja deve defender a liberdade para construir uma mesquita ou uma sinagoga. Liberdade religiosa não pode funcionar apenas quando protege aquilo em que nós mesmos acreditamos. Caso contrário, deixa de ser liberdade e transforma-se em privilégio.
O Brasil precisa justamente do movimento contrário ao que temos observado nos últimos anos. Em vez de estimular guerras religiosas, precisamos reconstruir uma cultura de tolerância. Em vez de transformar igrejas em palanques, precisamos fortalecer sua autonomia. Em vez de utilizar Deus como argumento eleitoral, precisamos discutir emprego, educação, saúde, desenvolvimento, ciência, desigualdade e os problemas concretos enfrentados diariamente pela população. A fé pertence à consciência das pessoas e não deveria ser sequestrada pelas estratégias de marketing de nenhuma candidatura.
Nossa Senhora Aparecida continuará sendo objeto de devoção para milhões de brasileiros independentemente das disputas eleitorais de 2026. Outros milhões continuarão professando suas próprias religiões ou nenhuma delas, como lhes garantem a Constituição desde 1946, quando o Deputado Federal Jorge Amado aprovou tal emenda constitucional. Essa diversidade não é um problema a ser resolvido: é parte constitutiva do Brasil. Respeitar símbolos religiosos, portanto, significa algo muito maior do que proteger uma imagem. Significa reconhecer o direito do outro de acreditar de maneira diferente. Em tempos de intolerância e radicalização, talvez seja justamente esse respeito que esteja fazendo tanta falta ao debate público brasileiro.








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