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CÂMARA DE MARIANA
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Opinião Rodolpho Bohrer comunicacao@maisminas.org

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

Bets, publicidade e os limites da mídia

Durante anos, casas de apostas compraram espaço e exposição em grandes veículos. Os efeitos sociais desse mercado tornam inevitável uma discussão sobre essa relação

Publicado em 25/09/2026 às 19:22

Há algum tempo me incomoda assistir à maneira como parte da imprensa brasileira se relaciona com as casas de apostas. De um lado, estão as reportagens sobre pessoas endividadas, dependência e famílias desestruturadas pelo jogo. Do outro, muitas vezes no mesmo veículo, estão os anúncios das bets que ajudam a alimentar esse problema.

Para mim, há uma contradição ética difícil de contornar.

A discussão ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (25) com o anúncio do governo Lula sobre a proibição das apostas esportivas e dos cassinos on-line no Brasil. A medida impede novos depósitos nas plataformas e estabelece um período para que os apostadores retirem o dinheiro que ainda possuem nas contas. O governo também anunciou que enviará ao Congresso um projeto para estabelecer penas para quem explorar, operar ou divulgar apostas.

Sei que publicidade e redação precisam funcionar de forma independente. Trabalho com jornalismo e sei também que manter um veículo custa dinheiro. Salários, servidores, equipamentos, impostos, produção de conteúdo. Publicidade paga boa parte dessa conta. O problema é achar que essa necessidade encerra qualquer discussão sobre quem deve ou não financiar o jornalismo.

As bets nunca foram anunciantes comuns. O lucro delas depende, essencialmente, de que as pessoas percam dinheiro. Algumas apostarão eventualmente e seguirão suas vidas. Outras perderão muito mais do que poderiam perder. E uma parcela desenvolverá uma relação destrutiva com o jogo. A própria imprensa já mostrou isso inúmeras vezes.

É justamente aí que a situação começa a me parecer indefensável. Como publicar uma reportagem mostrando uma família destruída pelo vício e, logo depois, exibir um anúncio convidando o leitor a apostar?

Não estou defendendo que jornais sobrevivam sem publicidade nem ignorando a realidade financeira da imprensa. Estou falando de limite. Toda empresa estabelece algum. E veículos jornalísticos, que diariamente cobram responsabilidade de políticos, empresários e instituições, deveriam ser ainda mais cuidadosos ao definir os seus.

Também existe algo que não aparece na tabela de preços de um anúncio. Quando uma bet ocupa espaço em um grande jornal, portal ou emissora, ela recebe um pouco da credibilidade daquele veículo. Essa associação tem valor.

Por isso, reduzir essa discussão à frase “a publicidade era legal” é pouco. Legalidade e ética nunca foram exatamente a mesma coisa.

Se o dinheiro das casas de apostas pesa mais do que tudo o que a própria imprensa mostra sobre vício, dívidas e famílias destruídas pelo jogo, alguma coisa está errada. E não dá para colocar essa conta só nas bets. A imprensa também precisa olhar para o papel que teve nisso tudo.

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