José Ferreira tinha dezesseis anos quando entrou pela primeira vez no galpão de uma grande indústria multinacional, no começo da década de 1960. Havia abandonado a escola antes de concluir o ensino fundamental. Levava uma marmita, uma carteira de trabalho quase vazia e o medo de errar diante de máquinas muito maiores que ele.

Começou como ajudante de manutenção. Aprendeu observando os mais velhos, decorou o som dos motores e passou a reconhecer defeitos pelo cheiro do óleo e pela mudança quase imperceptível de um ruído. Com o tempo, tornou-se supervisor de manutenção. Era procurado por engenheiros recém-chegados quando os manuais já não sabiam explicar o problema.
José se aposentou no início dos anos 1990 recebendo aproximadamente 15 salários mínimos. Considerando o salário mínimo vigente em 2026, de R$ 1.621, isso corresponderia hoje a praticamente R$ 25 mil. A comparação não é uma correção monetária precisa, mas revela a posição econômica que um trabalhador com ensino fundamental incompleto conseguiu alcançar.
José e sua esposa criaram dez filhos e filhas. A frase repetida à mesa era simples: “Estudem para não depender da fábrica.” Os filhos obedeceram. Marta, a mais velha, tornou-se professora de escola pública. Lúcia formou-se em Enfermagem e passou anos dividida entre plantões. Roberto entrou para a polícia. Cláudio virou topógrafo. Os demais também fizeram cursos, prestaram concursos ou buscaram profissões que exigiam uma escolaridade muito maior que a do pai.
Nenhum dos dez, porém, conseguiu repetir a ascensão econômica de José. Tinham diplomas que o pai nunca teve, mas não alcançaram a mesma estabilidade, a mesma renda nem a segurança com que ele chegou à aposentadoria.
Na geração seguinte, o contraste ficou mais duro. Um dos netos concluiu o curso técnico em eletromecânica, mas alterna pequenos serviços de instalação com períodos sem trabalho. Camila terminou Administração e combina vendas pela internet com contratos temporários em escritórios. Rafael começou uma faculdade, interrompeu o curso e hoje faz entregas por aplicativo. Jéssica, advogada com várias pós-graduações, nunca alcançou a renda do avô, nem mesmo a dos tios mais bem-sucedidos.
Eles trabalham, e trabalham muito. Ainda assim, alguns permanecem à margem da formalidade: sem carteira assinada, renda previsível, férias, proteção previdenciária ou segurança para planejar o ano seguinte — alguns, nem sequer o mês seguinte.
Formam uma espécie de lumpemproletariado do século XXI: o proletariado em farrapos, no conceito marxista. Não necessariamente farrapos nas roupas, mas nos vínculos, nos direitos e nas possibilidades de planejar a própria vida. Um serviço hoje, um bico amanhã, uma entrega à noite e nenhuma certeza sobre o futuro. Ou, pior: a desesperança torna-se a única certeza.
Em três gerações, a escolaridade subiu, mas o horizonte encolheu.
José, com o ensino fundamental incompleto, tornou-se supervisor numa multinacional e se aposentou com uma renda próxima do que hoje seriam R$ 25 mil. Seus dez filhos estudaram mais e não repetiram sua ascensão. Os netos estudaram ainda mais, mas alguns sequer encontraram uma escada firme para subir.
A história da família Ferreira é a crônica de uma promessa nacional que começou a perder a validade.
Durante muito tempo, uma frase organizou a esperança de milhões de famílias brasileiras: “Estude para ter uma vida melhor do que a minha.”
Não era apenas um conselho. Era um pacto entre gerações. Pais que trabalharam desde cedo, muitas vezes sem oportunidade de concluir os estudos, suportaram jornadas exaustivas para que seus filhos chegassem mais longe. O diploma representava a travessia entre dois mundos: de um lado, a sobrevivência; do outro, a estabilidade.
Os filhos estudaram. Terminaram o ensino médio, entraram em faculdades, fizeram cursos técnicos, especializações e aprenderam outros idiomas. Alguns colecionaram certificados com a disciplina de quem monta uma escada. Ao final, descobriram que a escada estava apoiada numa parede que já não levava ao lugar prometido.
Temos uma geração frequentemente mais escolarizada que seus pais, mas que nem sempre consegue imaginar um futuro melhor do que o deles.
Não se trata de negar o valor da educação. Estudar continua sendo uma das experiências mais transformadoras que uma pessoa pode viver. O problema começa quando a educação deixa de ser tratada como formação humana e passa a ser vendida como garantia individual de sucesso econômico.
O diploma continua importante, mas já não é garantia de futuro. A exigência de qualificação aumentou, enquanto parte considerável das vagas oferecidas permaneceu mal remunerada, precária ou distante da área de formação. O mercado pede experiência de quem procura o primeiro emprego, disponibilidade completa em troca de contratos instáveis e iniciativa de dono com remuneração de auxiliar.
Criamos uma espécie de escada rolante ao contrário: o jovem precisa correr apenas para permanecer no mesmo lugar.
Quando não consegue, dizem que lhe falta preparo. Ele faz outro curso. Depois, falta experiência. Ele aceita trabalhar de graça ou por pouco. Em seguida, falta capacidade de adaptação. Ele aprende a acumular funções. Por fim, informam que precisa cuidar melhor da própria ansiedade — de preferência fora do horário de expediente.
A engrenagem é sofisticada porque converte um problema coletivo em fracasso pessoal.
Se milhares de pessoas qualificadas não encontram trabalho digno, talvez o problema não esteja em cada uma delas separadamente. Talvez seja necessário perguntar que economia estamos construindo, quais atividades queremos desenvolver e por que tantos territórios formam profissionais sem criar condições para que eles atuem onde vivem.
Essa contradição se torna ainda mais visível nas cidades pequenas e nas regiões dependentes de poucas atividades econômicas. Forma-se o engenheiro que precisa partir, a psicóloga sem espaço para exercer, o advogado disputando oportunidades cada vez mais estreitas, a assistente social submetida a vínculos temporários e o técnico cuja profissão existe no catálogo do curso, mas quase não aparece no mercado local.
Quando os mais preparados precisam abandonar sua comunidade para conseguir trabalhar, o território perde duas vezes: perde o investimento feito naquela formação e perde o conhecimento que poderia ajudar a transformá-lo.
Vende-se essa partida como vitória pessoal. A fotografia da despedida recebe parabéns, enquanto ninguém pergunta por que permanecer se tornou impossível. “Vencer na vida” passa a significar escapar do lugar onde se nasceu. É uma definição curiosa de desenvolvimento: a comunidade investe na formação de seus jovens para depois assistir à exportação de sua inteligência.
A consequência não é apenas econômica. É também emocional e política.
Quando o esforço deixa de produzir horizonte, instala-se uma frustração profunda. O jovem começa a desconfiar da escola, das instituições e da própria ideia de futuro. Alguns se culpam. Outros se revoltam. Muitos silenciam. A sociedade, então, interpreta esse desalento como preguiça, falta de propósito ou fragilidade de uma geração que “não aguenta pressão”.
É sempre mais confortável diagnosticar a juventude do que examinar o mundo que lhe entregamos
A desesperança aparece justamente na distância entre aquilo que foi prometido e aquilo que pode ser vivido. Ela não nasce da ausência de sonhos, mas da repetida experiência de vê-los adiados. Não é que os jovens tenham deixado de desejar uma casa, uma profissão, uma família ou alguma estabilidade. Eles apenas perceberam que até os projetos mais modestos passaram a exigir esforços extraordinários.
O desafio é transformar conhecimento disperso em capacidade coletiva. Em vez de preparar cada jovem apenas para fugir sozinho, precisamos criar condições para que muitos possam construir juntos.
O diploma não perdeu o valor. O que perdeu valor foi a promessa de que cada pessoa, isoladamente, conseguiria resolver uma contradição construída por toda a sociedade.
A saída começa quando essa geração percebe que não estudou demais. O país é que ainda aprendeu pouco sobre o que fazer com tanta inteligência.








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