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CÂMARA DE MARIANA
Foto de Erenildo Euzébio
Opinião Erenildo Euzébio erenildoeuzebio1@gmail.com

Erenildo Euzebio é gestor público e liderança social, com atuação nas áreas de habitação de interesse social, direito à cidade, regularização fundiária, mobilidade urbana e desenvolvimento comunitário. Possui experiência na articulação entre poder público, organizações sociais, profissionais e comunidades para a construção de projetos e políticas públicas. Em seus textos, aborda economia, trabalho, território, desigualdades e participação popular a partir de uma perspectiva prática e comprometida com a transformação social. Acredita que o conhecimento técnico, quando aliado à organização coletiva, pode ampliar direitos e criar oportunidades.

Desesperança: o sentimento mais maligno do nosso tempo

Publicado em 10/09/2026 às 11:53

A desesperança é o sentimento negativamente mais poderoso da história humana e o mais maligno do nosso tempo. Não surgiu agora: atravessou épocas e regimes, mas voltou ao centro da vida contemporânea. O ódio faz mais barulho; antes dele, quase sempre existe uma esperança que apodreceu.

Uma promessa não cumprida. Um esforço sem recompensa. Uma espera além do suportável. Ninguém perde a esperança de uma vez. Primeiro, deixa de acreditar numa possibilidade; depois, numa instituição; por fim, na própria capacidade de modificar qualquer coisa.

Raramente chega fazendo barulho. Instala-se como um cansaço e se deixa perceber naquela frase pronunciada antes mesmo da primeira tentativa: “não adianta”. Está no trabalhador que já não entrega currículo porque conhece de antemão o silêncio da resposta; no jovem que não consegue imaginar onde estará daqui a cinco anos; no eleitor que deixou de reconhecer nas urnas qualquer consequência para sua vida; na pessoa que abandona uma reunião porque acredita que todas as decisões foram tomadas antes de sua chegada.

Em Pedagogia da esperança, Paulo Freire recusa a esperança como espera passiva. Esperar, nesse sentido, não é cruzar os braços e aguardar a gentileza da história. A história, aliás, raramente foi conhecida por sua gentileza. Freire também rejeita o fatalismo que apresenta a realidade como definitiva. Quando um problema se repete por tempo suficiente, aquilo que foi produzido por escolhas humanas começa a parecer natural. A desigualdade vira paisagem; o abandono, costume; a impotência, traço de personalidade.

É assim que uma construção histórica passa a ser aceita como destino. Já não se pergunta quem decidiu, quem ganhou, quem perdeu ou por que as coisas foram organizadas daquela maneira. A explicação se resume a uma pequena filosofia da resignação: “sempre foi assim”. Frase curta, barata e muito conveniente para quem prefere que continue sendo.

Quando esse sentimento se difunde pela população, deixa de ser apenas íntimo. Torna-se um ambiente social. Aparece nas organizações comunitárias que não conseguem renovar suas lideranças, nas reuniões esvaziadas, nos espaços comuns abandonados e na dificuldade de acreditar em qualquer projeto coletivo. Não porque as pessoas sejam naturalmente desinteressadas, mas porque aprenderam, pela repetição, a esperar pouco.

Nas eleições de 2022, 32,8 milhões de brasileiros não compareceram ao primeiro turno — 20,95% do eleitorado1. Seria intelectualmente preguiçoso atribuir toda ausência à desesperança: há dificuldades de deslocamento, problemas pessoais e muitas outras razões. Mas seria igualmente cômodo olhar para tamanho afastamento e não perguntar o que acontece quando milhões deixam de perceber a participação política como instrumento capaz de alterar a vida cotidiana.

A desesperança comunitária é uma das faces desse fenômeno. Ele também aparece no trabalho, na escola, na família e na política. Em todos esses espaços, produz o mesmo efeito: interrompe a ação antes que ela possa gerar experiência e confiança.

A crise da esperança não torna o povo naturalmente intolerante. Torna-o vulnerável a discursos que oferecem culpados no lugar de transformação. A frustração passa a procurar um rosto; o abandono vira ressentimento; a impotência, obediência; e a revolta contra as estruturas é desviada para o semelhante. Mudam-se os alvos, mas permanecem intactas as hierarquias que produziram o abandono.

O mesmo fatalismo também alcança aqueles que dizem defender a mudança. Isso acontece quando tratam o povo como conservador por natureza ou afirmam que nenhuma vitória é possível sem maioria institucional prévia. Transformam conjuntura em essência e correlação de forças em destino. Esquecem que muitas conquistas nasceram quando a sociedade agiu apesar da resistência dos representantes: o povo nem sempre venceu porque tinha maioria; muitas vezes, construiu maioria porque começou a vencer.

Esperança não é otimismo nem espera por condições ideais. É a capacidade organizada de produzir consequências. A desesperança é maligna porque sequestra essa capacidade: de um lado, transforma frustração em ódio; do outro, prudência em desistência. Nos dois casos, protege a ordem dominante. Rompê-la começa quando a ação coletiva desmente o “não adianta” e prova que a história não é sentença, mas disputa.

1. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. 100% das seções totalizadas: confira como ficou o quadro eleitoral após o 1º turno. Brasília, DF: TSE, 3 out. 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/100-das-secoes-totalizadas-confira-como-ficou-o-quadro-eleitoral-apos-o-1o-turno. Acesso em: 10 set. 2026.

* Coluna da Série: Desesperança — uma tecnologia social maligna

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