A proposta de Augusto Cury de usar drones para auxiliar no combate à violência contra a mulher chamou atenção pela aparente simplicidade. A vítima acionaria um botão, o equipamento chegaria antes da polícia e tentaria intimidar o agressor até a chegada de uma viatura. Seria ótimo se um problema tão profundo pudesse ser enfrentado dessa maneira. Cury é candidato à Presidência da República nas eleições de 2026.

A proposta ganhou destaque nacional em 29 de agosto, durante uma sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo. O momento de maior tensão ocorreu quando Renata Vasconcellos passou a questionar sua viabilidade prática, principalmente diante das diferenças de infraestrutura entre as regiões brasileiras e das limitações de conectividade. Em determinado momento, Cury respondeu com um “esquece o drone, Renata” e tentou direcionar a discussão para o aplicativo que faria parte do sistema, argumentando que a jornalista estava concentrando a entrevista em apenas uma parte da proposta.
O episódio ajuda a revelar um problema maior. A violência doméstica envolve dependência financeira, medo, reincidência, falhas na aplicação de medidas protetivas, dificuldade de acesso à polícia, falta de estrutura de acolhimento e uma cultura de violência construída durante décadas. Um drone pode eventualmente fazer parte de alguma política de segurança, mas apresentá-lo como uma resposta significativa para um problema dessa dimensão mostra o quanto soluções simples continuam sedutoras no discurso político.
É muito mais fácil apresentar uma tecnologia visível do que explicar como fortalecer delegacias, reduzir o tempo de atendimento, fiscalizar medidas protetivas, acompanhar agressores reincidentes e oferecer condições para que uma mulher consiga romper o ciclo de violência. Tudo isso exige planejamento, dinheiro, profissionais capacitados e continuidade. Exige ainda assumir que os resultados podem levar anos para aparecer e que boa parte das políticas realmente necessárias dificilmente rende uma imagem marcante em uma entrevista de televisão.
Há também uma característica recorrente do debate público por trás dessa lógica. Problemas complexos costumam encontrar culpados muito antes de encontrarem soluções. Quando algo dá errado, a responsabilidade é atribuída à polícia, à Justiça, ao governo anterior, às leis, à falta de fiscalização ou ao comportamento da própria sociedade. Em muitos casos, essas responsabilidades existem. Identificá-las, porém, é apenas uma parte do trabalho.
O desafio começa justamente depois disso. Governar significa decidir o que fazer diante de problemas que atravessam diferentes áreas do Estado e que dificilmente serão resolvidos por uma única medida. Significa sustentar políticas caras, demoradas e pouco atraentes eleitoralmente, dependentes de estrutura, fiscalização, integração entre órgãos públicos e continuidade mesmo depois que o assunto deixa de ocupar espaço no noticiário.
A proposta do drone ganhou tanta repercussão porque transforma uma questão difícil em uma cena muito fácil de visualizar. A mulher aciona o celular, o drone decola, chega rapidamente ao endereço e interfere na situação até a chegada da polícia. É uma narrativa compreensível e de forte impacto. O funcionamento da violência doméstica, porém, é muito mais difícil de condensar em uma imagem como essa.
Há mulheres que não conseguem denunciar. Outras denunciam e continuam vivendo perto do agressor. Existem casos em que medidas protetivas são desrespeitadas, situações de dependência econômica e episódios sucessivos de violência antes de uma agressão mais grave. Há ainda uma rede pública que precisa funcionar antes, durante e depois de cada ocorrência.
Nenhum equipamento isolado dará conta desse conjunto de fatores. O problema da proposta de Augusto Cury, portanto, vai além de saber se um drone consegue chegar antes de uma viatura. Está na crença recorrente de que problemas profundos podem encontrar respostas rápidas quando, na realidade, exigem escolhas difíceis, investimento permanente e políticas que talvez sequer produzam dividendos eleitorais imediatos.
Apontar onde o Estado falhou é relativamente fácil. Apontar quem deveria ter feito alguma coisa também. Muito mais difícil é assumir a responsabilidade de construir uma solução que sobreviva ao discurso, à campanha eleitoral e ao próximo governo.








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