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Por que Ouro Preto deixou de ser a capital de Minas Gerais após 177 anos

Cidade foi sede do poder mineiro entre 1720 e 1897, quando limitações para a expansão urbana e o projeto de uma capital planejada levaram à transferência do governo

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org

Quem conhece Ouro Preto atualmente como uma das principais cidades históricas do Brasil talvez não imagine que o município já concentrou também o poder político e administrativo de Minas Gerais. Ouro Preto foi capital mineira por 177 anos, entre 1720 e 1897, atravessando os períodos colonial, imperial e os primeiros anos da República.

Naquela época, porém, a cidade ainda não tinha o nome pelo qual é conhecida atualmente. Era Vila Rica, formada a partir dos arraiais que surgiram no fim do século XVII com a descoberta de ouro na região.

A mudança da capital para Belo Horizonte, no final do século XIX, não aconteceu de uma hora para outra. Foi resultado de um debate que envolvia as limitações para a expansão urbana de Ouro Preto e o desejo, após a Proclamação da República, de construir uma nova sede administrativa planejada segundo os ideais de modernização daquele período.

De Vila Rica à capital de Minas Gerais

A ocupação da região ganhou força a partir do fim do século XVII, impulsionada pela procura por ouro. Diferentes arraiais se desenvolveram nas encostas e vales e, em 1711, foram reunidos para formar Vila Rica de Albuquerque. No ano seguinte, D. João V confirmou a criação da vila, que passou a ser chamada Vila Rica do Ouro Preto.

Uma mudança política importante aconteceu em 1720. A antiga Capitania de São Paulo e Minas do Ouro foi desmembrada e Minas Gerais passou a constituir uma capitania independente. Nesse contexto, Vila Rica foi escolhida como sua capital.

A escolha estava relacionada à importância alcançada pela região durante o ciclo do ouro. Minas havia se transformado em um dos principais centros econômicos da América Portuguesa, enquanto Vila Rica crescia em população, atividade comercial e importância política.

Foi nesse ambiente que ocorreram acontecimentos que entrariam para a história brasileira. Em 1720, por exemplo, Vila Rica foi palco da revolta associada a Filipe dos Santos. Décadas depois, a cidade estaria no centro da Inconfidência Mineira, em 1789.

Quando Vila Rica passou a se chamar Ouro Preto?

(Foto: Arquivo Central do Iphan)

O nome atual veio mais de um século depois da formação da vila.

Em 1823, já depois da Independência do Brasil, Vila Rica foi elevada à categoria de cidade. Em 20 de março daquele ano, passou a ser denominada Imperial Cidade de Ouro Preto, mantendo a condição de capital, agora da Província de Minas Gerais.

Com a Proclamação da República, em 1889, a denominação ficou simplesmente Ouro Preto. A cidade continuou como capital do então Estado de Minas Gerais, mas a permanência da sede do governo ali já era objeto de discussão.

Foi nesse período que ganhou força o projeto de construção de uma nova capital.

Por que Ouro Preto deixou de ser capital?

Uma das principais questões estava na própria geografia de Ouro Preto.

A cidade havia se desenvolvido entre montanhas, acompanhando o relevo acidentado da região. Ruas, construções e bairros foram surgindo em um território com fortes declividades e limitações naturais para uma grande expansão urbana.

A própria história oficial de Ouro Preto registra que a perda da condição de capital ocorreu especialmente porque a cidade não apresentava alternativas consideradas viáveis para o desenvolvimento físico urbano.

No final do século XIX, essa característica passou a ser vista como um obstáculo diante da intenção de criar uma capital maior e planejada.

Havia também uma mudança política em curso. A República havia sido proclamada em 1889, e setores da política mineira defendiam uma nova capital associada aos ideais de modernização republicanos.

Em vez de adaptar Ouro Preto às novas necessidades administrativas e urbanas, Minas Gerais decidiu construir uma cidade.

Cinco lugares foram considerados para receber a nova capital

A transferência não significou que Belo Horizonte tenha sido escolhida imediatamente.

Em 1891, uma lei determinou o estudo de diferentes regiões para definir onde seria construída a nova sede do governo. Segundo o registro histórico da Câmara Municipal de Belo Horizonte, foram consideradas cinco alternativas: Belo Horizonte, Paraúna, Barbacena, Várzea do Marçal e Juiz de Fora.

Depois das avaliações e das discussões políticas, o Congresso mineiro escolheu o então Arraial de Belo Horizonte, anteriormente conhecido como Curral Del Rey.

A decisão foi formalizada pela Lei Adicional nº 3, de 17 de dezembro de 1893. O primeiro artigo da norma determinava Belo Horizonte como o lugar onde seria construída a nova capital do estado.

A mesma lei autorizava o governo a organizar o plano da cidade, incluindo terrenos destinados a edifícios públicos, praças, jardins, mercados, hospitais, vias e outros equipamentos urbanos.

Ou seja, Belo Horizonte seria construída desde o início para exercer a função de capital.

Ouro Preto deixou de ser capital em 1897

A nova cidade foi planejada sob a coordenação da Comissão Construtora da Nova Capital e inaugurada em 1897.

Em dezembro daquele ano, a sede do governo mineiro foi definitivamente transferida. Ouro Preto encerrava, assim, uma trajetória iniciada em 1720 como centro administrativo de Minas Gerais.

Foram 177 anos como capital, considerando o período entre 1720 e 1897.

Nesse intervalo, a cidade atravessou diferentes momentos da própria formação política brasileira:

PeríodoSituação de Ouro Preto
1711Vila Rica é criada
1720Vila Rica torna-se capital da Capitania de Minas Gerais
1823Passa a se chamar Imperial Cidade de Ouro Preto
1889Com a República, permanece como capital do Estado de Minas Gerais
1893Lei determina a construção da nova capital em Belo Horizonte
1897Governo mineiro é transferido para Belo Horizonte

A mudança teve consequências para Ouro Preto

Perder a condição de capital significava perder também parte da estrutura administrativa que movimentava a cidade. Órgãos públicos, funcionários e atividades ligadas diretamente ao governo foram transferidos para Belo Horizonte.

Documentação histórica da própria Prefeitura aponta que a transferência provocou um forte impacto na vida econômica de Ouro Preto. A cidade, entretanto, continuou mantendo importância na educação e na cultura, com instituições como as escolas de Farmácia e de Minas.

A perda da função administrativa acabaria acompanhada, nas décadas seguintes, por outra transformação na maneira como Ouro Preto era vista: a valorização de seu patrimônio histórico e arquitetônico.

Em 1933, a cidade foi elevada a Monumento Nacional. Em 1938, seu conjunto urbano foi tombado pelo órgão que hoje corresponde ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Décadas depois, em 1980, Ouro Preto tornou-se o primeiro bem cultural brasileiro inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

Assim, a cidade que perdeu para Belo Horizonte a função de centro político de Minas Gerais preservou boa parte das construções e do desenho urbano associados justamente ao período em que esteve no centro da vida econômica e administrativa mineira.

Referências

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

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