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CÂMARA DE MARIANA

Ouro Preto chegou a ter 100 mil habitantes no ciclo do ouro? Documentos colocam número em dúvida

Estimativa sobre a população da antiga Vila Rica atravessou os séculos, mas pesquisas mostram que diferentes limites territoriais podem ter inflado o número

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org

Ouro Preto costuma aparecer em relatos sobre o ciclo do ouro como uma cidade que teria alcançado 80 mil ou até 100 mil habitantes no século XVIII. A dimensão impressiona, principalmente quando comparada à de outros centros urbanos da América portuguesa naquele período. O problema é que os registros históricos conhecidos não permitem afirmar que toda essa população vivia no núcleo urbano da antiga Vila Rica.

Determinar quantas pessoas moravam na cidade no auge da mineração é mais complicado do que parece. Não existiam censos nos moldes atuais, os levantamentos tinham diferentes abrangências territoriais e conceitos como vila, termo e comarca se referiam a espaços distintos. Ao longo do tempo, números dessas diferentes áreas acabaram sendo utilizados como se todos correspondessem à atual Ouro Preto.

Um estudo publicado na revista Locus, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), analisou justamente as estimativas populacionais atribuídas a Vila Rica. A pesquisa considera frágeis vários cálculos sobre a população do século XVIII e trabalha com estimativas que variam entre 12 mil e 20 mil habitantes para a área urbana em meados daquele século.

De onde vieram os 100 mil habitantes?

A descoberta e a exploração do ouro provocaram um intenso movimento populacional em direção a Minas Gerais nas primeiras décadas do século XVIII. Vila Rica, criada oficialmente em 1711 a partir da reunião de arraiais mineradores, tornou-se um dos principais centros econômicos e administrativos da colônia.

Nesse contexto se difundiu a estimativa de que a população teria alcançado 100 mil habitantes. O número atravessou gerações e ainda aparece em textos sobre a história de Ouro Preto. A documentação demográfica conhecida, porém, torna difícil conciliar essa estimativa com os dados disponíveis.

Um levantamento de 1776, preservado pelo Arquivo Histórico Ultramarino e disponibilizado pelo projeto Counting Colonial Populations, é particularmente importante para entender a questão. O documento contabilizou a população da Comarca de Vila Rica, que compreendia a própria vila, Mariana e seus respectivos termos.

A comarca inteira tinha cerca de 78,5 mil habitantes naquele ano. Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Estudos de População apresenta um total de 78.518 moradores, enquanto outros trabalhos baseados na documentação histórica registram pequenas diferenças no número final.

Se um território que incluía Vila Rica, Mariana e outras localidades tinha menos de 80 mil moradores em 1776, a afirmação de que somente Vila Rica teria alcançado 100 mil habitantes algumas décadas antes exige cautela.

Então quantas pessoas viviam em Vila Rica?

Não existe um número definitivo capaz de responder quantos moradores havia no núcleo urbano exatamente no ponto máximo da mineração. As fontes permitem estabelecer ordens de grandeza, mas não chegar a uma contagem precisa.

O estudo publicado pela UFJF aponta que estimativas retrospectivas feitas a partir de informações recolhidas por viajantes permitem considerar algo entre 12 mil e 20 mil habitantes na área urbana de Vila Rica em meados do século XVIII. Os próprios pesquisadores destacam, entretanto, a fragilidade dos dados paroquiais utilizados em parte desses cálculos.

Há também uma estimativa de 20 mil habitantes em 1796, mas o dado apresenta outro problema. Não está claro se ele se refere exclusivamente às duas freguesias urbanas, Pilar e Antônio Dias, ou a todo o território administrado por Vila Rica. A incerteza sobre os limites considerados impede uma comparação direta.

No começo do século XIX, os registros tornam-se mais consistentes. Em 1804, as duas freguesias urbanas de Vila Rica somavam 8.867 habitantes. Uma pesquisa sobre a formação territorial das vilas mineiras mostra ainda que o Termo de Vila Rica tinha 22.222 habitantes em 1808, distribuídos pela sede e por diversos arraiais.

Cidade, termo e comarca não eram a mesma coisa

Boa parte da confusão pode ser explicada pela organização territorial da época.

Vila Rica correspondia ao núcleo urbano formado principalmente em torno das freguesias de Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. O termo abrangia uma área muito maior, semelhante, com as devidas diferenças históricas, ao território administrado pelo município. Já a comarca reunia os termos de Vila Rica e Mariana.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que, em 1808, os 22.222 habitantes do Termo de Vila Rica estavam distribuídos pela sede, por 15 arraiais e por outras localidades próximas. Portanto, esse número também não corresponde à população urbana da cidade.

Essa diferença ajuda a explicar como estatísticas de territórios extensos podem acabar associadas apenas a Vila Rica quando reproduzidas fora de seu contexto original.

Escravidão tinha peso enorme na população

Os registros demográficos também permitem conhecer melhor quem vivia na região. Em 1776, a Comarca de Vila Rica tinha uma população majoritariamente formada por pessoas pretas e pardas, livres ou escravizadas.

Segundo o estudo publicado na Revista Brasileira de Estudos de População, 44.086 pessoas eram escravizadas, o equivalente a 56,14% dos moradores da comarca naquele ano. O levantamento contabiliza 32.271 homens e 11.815 mulheres nessa condição.

Os dados mostram ainda uma forte diferença entre a quantidade de homens e mulheres. Considerando toda a população da comarca, eram 49.689 homens e 28.829 mulheres em 1776. Entre a população preta, a diferença era ainda maior, reflexo também da estrutura econômica ligada à mineração e do tráfico de africanos escravizados.

Vila Rica era grande mesmo sem 100 mil moradores

Questionar a famosa cifra de 100 mil habitantes não reduz a importância alcançada por Vila Rica no século XVIII. A mineração provocou um crescimento rápido dos arraiais, atraiu pessoas de diferentes regiões e transformou o lugar em um dos principais centros políticos, econômicos e urbanos da América portuguesa.

Com as fontes disponíveis atualmente, é mais seguro trabalhar com estimativas de 12 mil a 20 mil habitantes para o núcleo urbano no período de maior crescimento, sempre ressaltando a incerteza existente. O número de 100 mil moradores, embora amplamente repetido, não encontra respaldo equivalente nos levantamentos demográficos conhecidos.

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

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