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CÂMARA DE MARIANA

Desenhos em casarão de Ouro Preto podem ser homenagem funerária a mulher africana escravizada

Pesquisa da UFOP e da UFF relaciona inscrições encontradas na Rua Direita a tradições da África Ocidental. Painel foi descoberto em 2017 e ainda não possui datação científica

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org
SAMARCO AGOSTO

Os desenhos encontrados no porão de um casarão histórico de Ouro Preto podem ter sido produzidos como uma homenagem funerária a uma mulher africana escravizada, originária da Costa da Mina. A hipótese é apresentada pelos historiadores Francisco Eduardo de Andrade, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e Mariza de Carvalho Soares, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em um artigo científico publicado em 2026 na revista Varia Historia.

O estudo, intitulado Escravidão e sociabilidade de um sobrado da rua Direita do Ouro Preto, Minas Gerais, nos séculos XVIII-XIX, analisa inscrições que ocupam aproximadamente dois metros quadrados de uma parede do imóvel número 134 da Rua do Bobadela, antiga Rua Direita, no Centro Histórico. As imagens representam mulheres, animais e uma embarcação, elementos que podem narrar a vida da pessoa homenageada antes da escravização e sua travessia forçada pelo Oceano Atlântico.

A pesquisa foi apresentada por Francisco Andrade durante o XXI Fórum das Letras, em 15 de outubro, em Ouro Preto. O trabalho também ganhou divulgação no perfil Brasil Depois do Brasil, no Instagram, que abordou a interpretação das figuras e as preocupações com a conservação do imóvel.

Desenhos foram encontrados durante reforma em 2017

O painel foi descoberto durante obras no casarão e reúne imagens produzidas com diferentes técnicas, incluindo gravações na argamassa, pinturas e representações em baixo-relevo. As características indicam que a parede pode ter recebido intervenções de diferentes pessoas ao longo do tempo.

Em maio deste ano, o Mais Minas publicou uma reportagem sobre a descoberta arqueológica no Centro Histórico de Ouro Preto, apresentando informações sobre as cerca de 26 inscrições identificadas no imóvel e os trabalhos desenvolvidos pelo historiador e arqueólogo Leonardo Klink, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na ocasião, Klink destacou a variedade de materiais e estilos encontrados, incluindo figuras humanas, aves, embarcações e símbolos geométricos. O conjunto também apresenta representações que podem estar associadas a práticas culturais e religiosas africanas.

O artigo de Andrade e Soares concentra a análise em um grupo específico de figuras gravadas com buril ou instrumento semelhante. A uniformidade dos traços e dos temas sustenta a possibilidade de que essas imagens tenham sido produzidas pela mesma pessoa.

Painel reúne 17 figuras femininas e referências africanas

Entre os desenhos analisados estão 17 figuras femininas, distribuídas em três cenas. Uma delas apresenta 13 mulheres reunidas, enquanto outra mostra duas mulheres trabalhando com um pilão. As duas restantes aparecem no convés de uma embarcação à vela.

Próximo ao primeiro grupo, um quadriculado pode representar muros ou construções de barro associadas aos povos Gbe, da África Ocidental. A composição também apresenta um felino de grandes proporções, identificado pelos pesquisadores como uma provável representação de leopardo, animal associado à realeza no antigo reino do Daomé, localizado no território do atual Benim.

Grafismos encontrados em casarão colonial podem revelar novas dimensões da presença africana em Ouro Preto. A fotografia foi iluminada com velas eletrônicas que funcionam com baterias – (Foto: Leonardo Klink/ Divulgação)

A interpretação considera menos provável que a figura represente uma onça brasileira, já que os demais elementos analisados remetem ao universo cultural africano.

A embarcação possui casco baixo e duas velas principais. Seu desenho foi comparado a uma gravura inglesa de 1857, que retrata uma escuna utilizada no tráfico de pessoas escravizadas, e a uma inscrição feita com carvão no território do antigo Quilombo da Cabaça, em Diamantina.

Pesquisadores identificaram inscrições preservadas em porão subterrâneo no centro histórico da cidade. A fotografia foi iluminada com velas eletrônicas que funcionam com baterias – (Foto: Leonardo Klink/ Divulgação)

Pesquisa aponta possível relação com rituais funerários

A principal hipótese relaciona as imagens aos panos funerários utilizados entre povos do antigo Daomé. Esses tecidos apresentavam representações de acontecimentos da vida de uma pessoa falecida e eram exibidos durante cerimônias de despedida.

Nos funerais, um porta-voz explicava o significado das figuras por meio de uma cantiga. Posteriormente, o pano era enterrado com o morto, enquanto a família preservava a narrativa oral.

Uma das referências utilizadas no estudo é um pano funerário associado ao rei Glèlè, do Daomé. Para os historiadores, a disposição das imagens em Ouro Preto apresenta semelhanças com essa tradição, na qual diferentes representações compõem uma história transmitida entre gerações.

Segundo a interpretação apresentada no artigo, as inscrições retratam dois momentos da trajetória da mulher homenageada: sua vida na África, antes da escravização, e a viagem pelo Atlântico. Não foram identificadas cenas relacionadas ao período de cativeiro em Minas Gerais.

Os autores consideram que ela provavelmente chegou à região de Vila Rica durante a primeira metade do século XVIII. Após sua morte, pode ter sido sepultada conforme os ritos católicos, sem receber integralmente as cerimônias funerárias de sua tradição ancestral.

O painel poderia ter sido produzido no século XIX, logo após o falecimento ou anos mais tarde, por integrantes de uma comunidade que preservava conhecimentos culturais de origem africana.

Documentos históricos mencionam mulher chamada Quitéria mina

A investigação documental encontrou referências a Quitéria mina, mulher escravizada por Caetano Francisco da Costa, ligado à história do imóvel. Segundo os registros examinados, ela tinha aproximadamente 70 anos quando seu senhor morreu.

Os pesquisadores estimam que Quitéria possa ter chegado à região entre 1728 e 1738, período de intensa entrada de africanos provenientes da Costa da Mina. Entretanto, não existem evidências suficientes para associá-la diretamente à pessoa possivelmente homenageada.

O estudo também utiliza informações do recenseamento de Vila Rica de 1804, quando africanos provenientes da África Ocidental representavam aproximadamente 6,2% da população escravizada. Os integrantes mais velhos dessas comunidades desempenhavam papel importante na transmissão de memórias e tradições ancestrais.

Preservação do casarão preocupa pesquisadores

A conservação das inscrições permanece entre as preocupações relacionadas ao imóvel. Conforme o Mais Minas informou em maio, um parecer técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), emitido em março de 2026, recomendou a homologação do local como sítio arqueológico denominado Inscrições Afrodiaspóricas.

Na ocasião, o instituto reconheceu a relevância nacional do conjunto, considerando os vestígios relacionados às práticas culturais, à religiosidade e às formas de resistência de pessoas submetidas à escravidão. O casarão ainda não estava aberto à visitação pública e dependia de adequações para garantir a conservação das imagens.

No vídeo divulgado pelo Brasil Depois do Brasil, também foi relatada a deterioração da casa vizinha, que compartilha uma parede com o imóvel onde estão os desenhos. Segundo a publicação, a construção apresenta risco de desabamento, enquanto o casarão das inscrições ainda enfrenta procedimentos de regularização junto ao Iphan.

A pesquisa arqueológica segue em andamento, sob responsabilidade da arqueóloga Cláudia Regina Plens. Entre as etapas previstas está a avaliação de métodos para determinar a idade das inscrições, cuja datação científica ainda não foi realizada.

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

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