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Pedro Luiz Teixeira de Camargo pedro0peixe@yahoo.com.br

Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo, Geógrafo e Professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.

Mais mineração em Mariana: desenvolvimento econômico ou aprofundamento da dependência?

Publicado em 30/10/2026 às 18:23

A recente autorização concedida à uma empresa multinacional para a implantação de uma nova planta industrial na Mina Fazendão, em Mariana, reacendeu um debate que deveria ocupar permanentemente a agenda política e econômica dos municípios mineradores de Minas Gerais: até que ponto a expansão da atividade mineral representa desenvolvimento efetivo para a população? O empreendimento, que prevê a contratação de aproximadamente 3,6 mil trabalhadores durante sua implantação, chega acompanhado de expectativas positivas quanto à geração de empregos, movimentação do comércio e ampliação da arrecadação. Entretanto, também desperta preocupações legítimas sobre seus impactos ambientais, sociais e urbanos. Em uma cidade que ainda convive com as consequências do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, discutir os limites e as contrapartidas de novos empreendimentos minerários não é uma questão secundária, mas uma necessidade histórica.

Segundo dados públicos, a nova estrutura terá capacidade para processar aproximadamente 21,8 milhões de toneladas de minério de ferro anualmente, produzindo até 12,6 milhões de toneladas de concentrado mineral. A previsão é de 3.603 contratações durante a fase de implantação, número que representa uma oportunidade importante para trabalhadores da região dos Inconfidentes. Não podemos ignorar que milhares de famílias dependem direta ou indiretamente da mineração para garantir sua sobrevivência. Em uma região marcada pela forte presença da indústria extrativa, novos postos de trabalho significam renda, consumo, arrecadação e possibilidades concretas de melhoria das condições materiais de vida. Seria equivocado, portanto, desconsiderar os benefícios econômicos que um investimento dessa dimensão pode proporcionar.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre crescimento econômico e desenvolvimento regional. A instalação de uma nova estrutura industrial pode elevar temporariamente o número de empregos e estimular diferentes setores da economia, mas isso não significa necessariamente uma transformação estrutural das condições de vida da população. Os próprios documentos do empreendimento indicam que, após a fase de implantação, a operação da Mina Fazendão deverá contar com aproximadamente 711 trabalhadores por dia, incluindo diferentes equipes. Ou seja, não estamos falando de 3,6 mil empregos permanentes. Essa distinção precisa ser apresentada com transparência, porque a história dos municípios mineradores demonstra que os ciclos de expansão frequentemente são acompanhados por períodos posteriores de retração, desemprego e dificuldades econômicas.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito aos impactos urbanos decorrentes da chegada de milhares de trabalhadores. Recentemente, a Câmara Municipal de Mariana convocou representantes de seis empresas mineradoras para discutir a possibilidade de mobilização de um contingente estimado entre 5 mil e 15 mil profissionais, considerando diferentes empreendimentos previstos para a região. Embora esses números ainda dependam de confirmação, a preocupação é absolutamente pertinente. O aumento da população flutuante pode pressionar os preços dos aluguéis, ampliar a especulação imobiliária, sobrecarregar os serviços públicos de saúde, educação e transporte, além de aumentar a demanda por abastecimento de água e saneamento básico. O que inicialmente aparece como prosperidade econômica pode rapidamente transformar-se em deterioração das condições de vida dos moradores, caso não exista planejamento adequado.

É justamente nesse ponto que precisamos discutir a responsabilidade das grandes empresas mineradoras. Não é aceitável que corporações capazes de movimentar bilhões de reais transfiram aos municípios os custos sociais de sua expansão produtiva. Se uma transnacional pretende instalar um empreendimento que mobilizará milhares de trabalhadores, deve participar diretamente do financiamento da infraestrutura necessária para receber esse contingente. Isso significa contribuir para políticas habitacionais, ampliação da rede de saúde, melhorias no saneamento, mobilidade urbana e qualificação profissional. Tais investimentos não podem ser tratados como favores empresariais ou ações voluntárias de responsabilidade social, mas como contrapartidas concretas, proporcionais aos impactos efetivamente provocados pelo empreendimento.

A questão ambiental também exige atenção redobrada. O projeto da Mina Fazendão prevê intervenções em aproximadamente 89 hectares, incluindo áreas de preservação permanente, supressão de árvores nativas e alterações em cursos d’água. Entre as intervenções previstas está a canalização de cerca de 700 metros do córrego São Luís, além da utilização de volumes expressivos de água no processamento mineral, embora o empreendimento apresente elevada taxa projetada de recirculação. Esses dados demonstram que a expansão da mineração produz transformações territoriais que ultrapassam os limites físicos da unidade industrial. Alterações na drenagem, na vegetação, na disponibilidade hídrica e na paisagem precisam ser acompanhadas por fiscalização permanente, estudos técnicos independentes e mecanismos efetivos de participação das comunidades atingidas.

Não podemos esquecer que Mariana carrega um dos maiores crimes socioambientais da história brasileira. O rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015, deixou 19 mortos, destruiu comunidades e provocou impactos ao longo da bacia do Rio Doce. Mais de uma década depois, a região ainda enfrenta desafios relacionados à reparação dos danos e à reconstrução das condições de vida das populações atingidas. Evidentemente, a existência desse histórico não significa que qualquer novo empreendimento minerário deva ser automaticamente rejeitado. Significa, entretanto, que o poder público precisa adotar critérios especialmente rigorosos de fiscalização, prevenção e transparência. A geração de empregos jamais poderá ser utilizada como argumento para relativizar a segurança ambiental ou os direitos das comunidades.

Existe ainda uma questão estrutural que considero central para o futuro de Mariana e dos demais municípios mineradores de Minas Gerais: a dependência econômica de uma atividade baseada na exploração de recursos naturais finitos. Durante décadas, nossas cidades produziram enormes quantidades de riqueza mineral, mas nem sempre conseguiram transformar essa produção em diversificação econômica, industrialização e desenvolvimento tecnológico. Boa parte do minério extraído continua seguindo para outros mercados, enquanto os territórios produtores permanecem excessivamente dependentes das decisões de grandes empresas e das oscilações internacionais dos preços das commodities. Esse modelo precisa ser enfrentado, não pela eliminação da mineração, mas pela construção de alternativas produtivas capazes de garantir empregos e arrecadação mesmo quando os ciclos extrativos chegarem ao fim.

Nesse sentido, defendo que a expansão da mineração seja acompanhada de uma política permanente de diversificação econômica, financiada por recursos públicos e contrapartidas empresariais. Mariana possui condições privilegiadas para avançar nessa direção, especialmente pela proximidade com a Universidade Federal de Ouro Preto, o Instituto Federal de Minas Gerais e outras instituições de pesquisa. Parte das receitas provenientes da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, respeitadas as exigências legais de sua aplicação, deveria integrar uma estratégia de longo prazo voltada à criação de parques tecnológicos, incubadoras de empresas, centros de pesquisa, formação profissional e incentivo a novos setores industriais. Também é necessário fortalecer o turismo histórico e cultural, a agricultura familiar, os pequenos negócios e as cadeias produtivas regionais. O minério pode financiar essa transição, mas não pode continuar sendo o único horizonte econômico da cidade.

A autorização para a nova planta da empresa multinacional representa, portanto, uma oportunidade que precisa ser acompanhada de responsabilidade política, planejamento territorial e participação popular. A Prefeitura de Mariana, a Câmara Municipal, o Governo de Minas Gerais e as empresas mineradoras devem construir compromissos públicos, com metas verificáveis de contratação local, investimentos em infraestrutura, proteção ambiental e diversificação produtiva. É fundamental compreender que desenvolvimento não pode ser medido apenas pela quantidade de toneladas extraídas ou pelo número de empregos anunciados durante uma obra. Desenvolvimento significa melhorar permanentemente a vida das pessoas, distribuir a riqueza produzida e preparar o território para o futuro. Mariana já entregou minério suficiente para demonstrar sua importância econômica ao Brasil. Chegou o momento de exigir que uma parcela cada vez maior dessa riqueza permaneça no município, transformando-se em educação, ciência, infraestrutura, qualidade de vida e oportunidades para as próximas gerações.

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