A participação em eventos culturais pode ultrapassar os limites da programação e provocar reflexões sobre a realidade dos municípios, a representatividade social e o papel das políticas públicas na valorização de grupos historicamente marginalizados. Foi com esse olhar que o jornalista e escritor Lourenzo, membro efetivo do Coletivo Negritude Itabiritense, participou do Fala Quilombo, realizado entre os dias 16 e 18 de outubro de 2026, em Itabira, em Minas Gerais.

O encontro reuniu manifestações culturais, rodas de conversa, shows, intervenções artísticas e iniciativas de valorização dos povos quilombolas, indígenas, negros e da diáspora. A programação também contou com espaços voltados ao público infantil e à promoção da diversidade, evidenciando como cultura, identidade e participação social podem caminhar juntas.
Convidado por intermédio de Robson Silva, gerente de Projetos de Desenvolvimento Social de Itabirito, Lourenzo participou da programação com o propósito de observar experiências, conhecer iniciativas e ampliar o diálogo com agentes culturais e representantes da sociedade civil. A vivência também trouxe questionamentos sobre como práticas semelhantes podem inspirar novas ações no município onde atua.
A participação em encontros dessa natureza ganha importância quando o conhecimento adquirido pode retornar à comunidade de origem e contribuir para novas articulações. No caso do Coletivo Negritude Itabiritense, a experiência abre possibilidades de reflexão sobre o fortalecimento de iniciativas voltadas ao protagonismo da população negra, à valorização da ancestralidade e à construção de espaços de participação social.
A programação do Fala Quilombo chamou a atenção pela diversidade de atividades e pela presença de iniciativas que aproximam cultura, formação e mobilização comunitária. A feira de empreendimentos, as apresentações artísticas e as rodas de conversa demonstraram diferentes formas de dar visibilidade a saberes, histórias e expressões culturais.

Como jornalista, Lourenzo também participou de entrevistas com integrantes da programação e empreendedores, em colaboração com a equipe oficial do evento, ampliando o contato com diferentes perspectivas e experiências. A vivência reforçou a importância da comunicação como instrumento de registro, reconhecimento e divulgação de iniciativas culturais e sociais.
Outro destaque foi a Tenda da Diversidade, espaço dedicado ao acolhimento, à escuta e à promoção dos direitos da população LGBTQIA+. No local, a equipe desenvolveu atividades de acolhimento e diálogo, além de disponibilizar materiais informativos destinados a grupos socialmente minorizados.
A iniciativa provocou reflexões sobre a relação entre equidade racial, diversidade sexual e de gênero e políticas públicas de desenvolvimento social. A experiência também levantou possibilidades de cooperação entre coletivos, organizações e agentes públicos para a construção de ações mais acessíveis e representativas.
A proposta do Fala Quilombinho, voltada ao público infantil, também se destacou por aproximar as novas gerações da ancestralidade e das expressões culturais dos povos tradicionais. A iniciativa reforça o papel da formação cultural na valorização das identidades e na construção de uma sociedade mais consciente de sua diversidade.
A participação de representantes da sociedade civil em encontros de outros municípios permite conhecer diferentes formas de organização e identificar possibilidades de adaptação à realidade local. Entretanto, o desafio está em transformar a observação em iniciativas concretas, com diálogo, planejamento e participação comunitária.
Em Itabirito, a experiência abre espaço para discutir como o poder público, os coletivos e os agentes culturais podem ampliar a cooperação em pautas relacionadas à equidade racial, à diversidade, à memória e aos direitos humanos. Mais do que reproduzir modelos de outras cidades, a reflexão passa pela construção de propostas que considerem as características e as demandas da população local.
A articulação entre cultura e desenvolvimento social pode contribuir para ampliar a participação de grupos historicamente marginalizados e fortalecer iniciativas que já existem no município. Para isso, é necessário reconhecer o trabalho dos coletivos, incentivar a participação de seus integrantes em espaços de intercâmbio e criar condições para que os aprendizados adquiridos se convertam em ações permanentes.
A experiência de Lourenzo no Fala Quilombo também evidencia uma questão importante: qual é o papel dos representantes de coletivos quando ocupam espaços externos? A presença institucional, por si só, é suficiente ou precisa ser acompanhada de registros, compartilhamento de aprendizados e propostas de continuidade?
A discussão permanece aberta. Para o Coletivo Negritude Itabiritense, o encontro representa uma oportunidade de ampliar repertórios, estabelecer conexões e refletir sobre os próximos passos de sua atuação.
O Fala Quilombo reforça a importância de iniciativas que valorizam a ancestralidade, promovem o encontro entre diferentes comunidades e criam oportunidades para a expressão cultural. A experiência também convida a sociedade a refletir sobre como fortalecer suas próprias ações e ampliar o diálogo entre poder público, sociedade civil e movimentos sociais.
A pergunta que fica é direta: estamos dispostos a reconhecer o protagonismo negro para além dos discursos e das datas comemorativas? A construção de uma sociedade mais justa exige participação, reconhecimento, oportunidades e políticas de equidade capazes de produzir resultados concretos.
E você, acredita que os coletivos e representantes da sociedade civil têm recebido o espaço e o reconhecimento necessários para contribuir com as transformações sociais? O debate está aberto.
Lourenzo é jornalista, escritor e membro efetivo do Coletivo Negritude Itabiritense.




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