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CÂMARA DE MARIANA
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Lourenzo comunicacaolourenzo@gmail.com

Lourenzo é jornalista, escritor e integra o time de colunistas do O Mais Minas, sendo especializado em Moda, Literatura e Comportamento. Com mais de 100 artigos e reportagens publicados, assina uma coluna pautada pela análise crítica e pelo comportamento reflexivo, abordando estilo de vida, cultura e intelectualidade. . Sua formação combina Comunicação pela Fashion Meet (SP), Data Jornalismo e Publicidade Online pela FGV, e especialização em Escrita Criativa pela PUCRS. Coordenador editorial e coautor em três obras literárias, é também palestrante e foi reconhecido com a Moção de Aplausos por Mérito Cultural e eleito Influenciador Destaque em Itabirito (MG), consolidando-se como uma das vozes jovens de maior destaque na Região dos Inconfidentes.

Analógico versus digital: o que perdemos além do tato e das experiências físicas?

Publicado em 07/10/2026 às 14:34
SAMARCO AGOSTO

Aos generosos leitores da coluna Prosa & Opinião, sejam bem-vindos, especialmente aqueles que chegam agora. Uma vez por semana, compartilho, com exclusividade no Jornal Mais Minas, um artigo opinativo sobre comportamento, sociedade, cotidiano, literatura e as transformações que atravessam o nosso tempo. Na última coluna, “Quem tem medo do homem negro?”, recebemos centenas de mensagens de educadores, acadêmicos e usuários das redes sociais que relataram ter sido impactados pelas provocações apresentadas no texto. É exatamente esse o propósito desta coluna: provocar uma leitura mais aprofundada, abrir espaço para a reflexão e estimular o debate.

Entre as mensagens recebidas, o leitor Marconni, do Maranhão, compartilhou conosco: “Belas palavras! Fico tão feliz de ver que deram espaço em uma coluna para um homem jovem, que luta pelas pautas tão urgentes do nosso dia a dia. Parabéns pela escrita tão reflexiva!”. A ele e a todos os leitores, meu agradecimento. E, se você chegou até aqui por indicação de alguém, compartilhe também. A conversa precisa continuar, porque uma coluna de opinião só faz sentido quando encontra leitores dispostos a pensar, questionar e também discordar.

O quanto fomos analógicos e para onde a era digital tem nos levado? Neste novo artigo, volto a falar sobre comportamento e consumo, a partir de mais uma observação sobre as mudanças silenciosas que acontecem diante dos nossos olhos e que, muitas vezes, só percebemos quando alguma lembrança do passado reaparece. Recentemente, fui presenteado por um amigo artista plástico com uma máquina de escrever Remington 33 L, provavelmente pertencente às décadas de 1970 e 1980. O objeto, por si só, já carregava uma história. Mas o que realmente chamou minha atenção foi aquilo que ele despertou em mim.

Uma máquina de escrever não é apenas uma máquina de escrever no meu entendimento. Ela representa um tempo em que escrever exigia papel, tinta, força nas mãos, atenção e paciência. Cada palavra deixava uma marca física, não havia uma tecla para simplesmente apagar instantaneamente um pensamento; havia o erro, a rasura, o papel amassado e a tentativa novamente. Talvez seja justamente isso que tenha mexido tanto comigo, tenho, nos últimos tempos, me aproximado cada vez mais de referências analógicas: discos de vinil, máquinas fotográficas, CDs, livros impressos, exemplares antigos encontrados em sebos e objetos que sobreviveram às suas próprias épocas. Para alguns, são coisas velhas. Para mim, são manifestações de um vintage atemporal.

São objetos que carregam matéria, memória e permanência. Enquanto tantos arquivos hoje dependem de servidores, plataformas, dispositivos eletrônicos e sistemas de armazenamento, esses objetos continuam fisicamente presentes, atravessando décadas. Tenho colecionado algumas dessas antiguidades de épocas em que sequer havia nascido. Existe algo muito bonito nisso: tocar aquilo que pertenceu a uma geração anterior à nossa, observar seus detalhes, imaginar quem utilizou aquele objeto e pensar em quantas histórias passaram por aquelas mãos.

Nasci no início dos anos de 1990. Quando comecei a crescer, o computador e a internet já estavam avançando e entrando, pouco a pouco, na vida cotidiana. Não vivi integralmente o mundo anterior à tecnologia digital, mas vivi uma parte importante dessa transição. Minha geração experimentou diferentes formas de tecnologia. Conheci a televisão de tubo e a televisão colorida, aparelhos de DVD, videogames sem manetes sensoriais, aparelhos de som que tocavam CDs e ainda permitiam ouvir fitas, telefones fixos, orelhões, fichas telefônicas, cartões, disquetes e, posteriormente, os pen drives.

Também vivi a época das locadoras de filmes. Para quem nasceu depois, talvez pareça estranho imaginar que era necessário sair de casa para escolher um filme. Mas havia algo especial nesse ritual: caminhar entre as prateleiras, observar as capas, ler as sinopses e decidir qual filme levar para casa. Na minha casa, havia DVDs de filmes e videoclipes, especialmente de artistas do R&B norte-americano que eu gostava de ouvir e assistir na sala. Era uma experiência diferente da atual, quando praticamente qualquer conteúdo pode ser encontrado em poucos segundos por meio de uma plataforma de streaming.

Depois vieram as lan houses, espaços onde se pagava por hora para utilizar um computador e acessar a internet. Foi ali que muitas pessoas da minha geração começaram a experimentar as primeiras redes sociais, especialmente durante a transição para a década de 2010. Também conheci os telefones públicos, os famosos orelhões, utilizei fichas e cartões telefônicos e acompanhei a transformação dos aparelhos celulares, que deixaram de ser instrumentos basicamente voltados à comunicação para se tornarem verdadeiros centros de informação, entretenimento, trabalho, relacionamento e armazenamento.

Hoje, tudo isso parece distante, mas não está tão distante assim. É curioso perceber que uma pessoa com pouco mais de 30 anos já consegue dizer “na minha época era assim”. E era mesmo. Talvez essa seja uma das características mais curiosas do nosso tempo: vivemos mudanças tecnológicas tão rápidas que uma mesma geração consegue experimentar diferentes formas de comunicação, entretenimento, armazenamento e relacionamento. Se você também viveu algumas dessas experiências, talvez se identifique com esta reflexão. E eu gostaria de saber: quais tecnologias analógicas fizeram parte da sua infância ou juventude?

Existe uma diferença fundamental entre consumir algo fisicamente e simplesmente acessá-lo digitalmente. Antes, muitas coisas eram palpáveis. Você segurava o livro, sentia o peso da revista, folheava as páginas, comprava um CD e observava sua capa, colocava o disco no aparelho e escutava a música na sequência determinada pelo álbum. Você tinha fotografias reveladas em papel, álbuns, cartas, bilhetes e objetos. Havia cheiro, textura, peso, som e até pequenas imperfeições. O físico exigia presença. Era uma experiência que ocupava espaço no mundo real.

Hoje, grande parte dessas experiências cabe dentro de uma tela. Nossa música está nas plataformas de streaming, nossos filmes estão nos catálogos digitais, nossas fotografias estão armazenadas na nuvem, nossos documentos estão em drives e nosso banco está no celular. O cartão pode ser digital, o documento pode estar no aparelho, o transporte pode ser solicitado por aplicativo e até mesmo uma refeição que antes exigia uma ligação telefônica pode ser escolhida, paga e acompanhada pela tela do celular. Não precisamos necessariamente ir até uma loja para comprar um produto e também não precisamos revelar fotografias para guardar lembranças. Tudo ficou mais rápido, compacto e otimizado.

A transformação é impressionante. Nossos fones de ouvido já não precisam de fios, relógios inteligentes monitoram diversas informações, casas possuem dispositivos acionados por voz, televisores oferecem acesso a centenas de conteúdos e carros estão cada vez mais conectados e eletrificados. Sistemas de pagamento permitem aproximação, eletrodomésticos incorporam recursos inteligentes e praticamente tudo ao nosso redor parece estar sendo integrado a algum tipo de tecnologia. Mudamos drasticamente e, muitas vezes, sequer percebemos a velocidade dessa mudança porque estamos ocupados demais vivendo dentro dela.

Até mesmo a maneira como buscamos conhecimento mudou. Já pesquisamos em livros, jornais, revistas, enciclopédias e dicionários. Depois, vieram os mecanismos de busca, como o Google, e a expansão do acesso às informações pela internet. Agora convivemos com ferramentas de inteligência artificial capazes de responder perguntas, organizar informações, produzir textos e participar de conversas. É uma mudança gigantesca. Mas existe uma pergunta que me acompanha: o que acontece conosco quando quase tudo se torna instantâneo?

Talvez este seja um dos grandes paradoxos da nossa época. Temos mais acesso, mas menos tempo. Temos mais possibilidades, mas também mais distrações. Temos mais ferramentas de comunicação, mas nem sempre conseguimos conversar melhor. Temos mais formas de armazenar nossas memórias, mas talvez estejamos vivendo cada vez menos o momento presente. A tecnologia encurtou distâncias, facilitou tarefas e abriu portas que antes pareciam impossíveis, mas também transformou a nossa relação com a espera, com o silêncio e com a própria atenção.

Como jornalista e alguém profundamente ligado à literatura, não consigo deixar de pensar nos livros impressos. O livro físico não é apenas conteúdo. Ele possui capa, papel, cheiro, peso e marcas de uso. Um livro antigo pode carregar uma dedicatória, uma anotação, uma página dobrada ou uma pequena mancha que conta uma história. O e-book é extremamente útil, acessível e portátil, permitindo carregar centenas de obras em um único dispositivo. Mas existe uma experiência diferente quando abrimos um livro impresso. Não é necessariamente uma questão de qual formato é superior, mas de compreender que cada formato produz uma experiência diferente.

Também penso nas fotografias. Hoje podemos registrar centenas de imagens em poucos minutos, mas muitas delas permanecem esquecidas em uma galeria digital. Antigamente, fotografar era também escolher. Havia uma quantidade limitada de poses, o filme precisava ser revelado e só então descobríamos o resultado. Talvez aquela limitação tornasse cada fotografia mais especial. Hoje temos milhares de registros, mas quantos realmente revisitamos? Quantas imagens ainda imprimimos, colocamos em um álbum ou deixamos fisicamente disponíveis para as próximas gerações?

Como profissional da comunicação, observo essas transformações com fascínio, mas também com certa inquietação. Estamos diante de uma sociedade cada vez mais acelerada, conectada, competitiva e estimulada por informações ininterruptas. Recebemos notificações o tempo inteiro, consumimos notícias em segundos, trocamos de aplicativo em aplicativo, assistimos a vídeos cada vez mais curtos, pulamos anúncios, avançamos episódios e respondemos mensagens enquanto realizamos outras atividades. Parece que até o tempo precisa ser otimizado.

Não quero romantizar o passado como se tudo nele fosse melhor. O mundo analógico também tinha limitações. A comunicação era mais lenta, o acesso à informação era mais restrito e muitas tecnologias eram caras ou pouco acessíveis. O digital democratizou possibilidades, aproximou pessoas, ampliou conhecimentos e transformou profissões inteiras. Seria ingênuo negar seus benefícios. Mas também seria ingênuo acreditar que toda inovação representa necessariamente uma evolução humana.

No fim, talvez não tenhamos perdido apenas o tato. Talvez estejamos perdendo, aos poucos, a capacidade de esperar pelas coisas. Talvez estejamos trocando experiências por acessos, memórias por arquivos e presença por conectividade. Talvez o passado tenha algo a nos ensinar justamente porque nem tudo nele era imediato. Algumas coisas precisavam de tempo para acontecer, e talvez esse tempo também fizesse parte da experiência.

A máquina de escrever que recebi continua sobre a mesa. Ela não está conectada à internet, não possui inteligência artificial, não armazena arquivos na nuvem, não envia mensagens e não atualiza sistemas. Mas, quando olho para ela, penso em uma coisa que nenhuma tecnologia conseguiu substituir completamente: a marca humana deixada pelo tempo. Ela me lembra que antes de sermos usuários, consumidores e perfis digitais, fomos e continuamos sendo pessoas capazes de tocar, sentir, guardar, lembrar e atribuir significado às coisas.

E você, o que sente que perdemos nessa passagem do analógico para o digital? Será que existe um meio-termo possível entre a velocidade do futuro e a presença que o passado nos ensinou? Talvez essa conversa mereça um café. E, desta vez, quem sabe, sem o celular sobre a mesa.

Quanto de analógico ainda existe em nós?

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