Leitores da coluna Prosa & Opinião, sejam bem-vindos a mais uma reflexão. Agradeço os retornos e o carinho recebidos após a última coluna, “Um homem preto incomoda muita gente?”. Também agradeço aos escritores Carlos Bonfim e Tião Jorge pela leitura e pelas contribuições ao debate. O texto chegou a leitores do meio acadêmico e ao público em geral, o que reforça a importância de uma coluna que não pretende apenas apresentar opiniões, mas provocar perguntas e estimular novas conversas sobre temas que atravessam a sociedade.

Falar de política no Brasil contemporâneo é falar também de comportamento, comunicação e relações sociais. Desde 2018 em especial um perído eleitoral presidencial, o país atravessa mais um novo período de intensa polarização, no qual as disputas eleitorais passaram a ocupar espaços muito além dos partidos e das instituições. A política entrou nas conversas familiares, nas amizades, nos ambientes de trabalho, nas universidades e, principalmente, nas redes sociais. O cidadão passou a não apenas acompanhar a política, mas também produzir, comentar, compartilhar e disputar narrativas.
Esse processo não nasceu em 2018. A história política brasileira possui uma tradição marcada por diferentes forças conservadoras, progressistas e de centro. Entretanto, os acontecimentos eleitorais daquele ano contribuíram para intensificar uma divisão que já vinha sendo construída socialmente. O debate político tornou-se mais emocional, identitário e, em muitos momentos, agressivo. Arriscaria dizer que a internet intensificou o feito. Para compreender esse cenário, vale também a leitura do artigo da Revista Fórum, “Quem mais governou o Brasil: a esquerda ou a direita?”, que propõe uma análise histórica sobre os grupos políticos que ocuparam o poder no país. A discussão é importante justamente porque demonstra que a história brasileira não pode ser resumida a uma disputa simplificada entre dois lados.
O problema é que, em um ambiente de polarização, a complexidade costuma perder espaço. Muitas pessoas passaram a interpretar a política a partir de marcadores muito definidos: quem é o candidato, qual partido defende, qual pauta apoia e qual grupo considera inimigo. A opinião política, que deveria fazer parte do exercício democrático, em determinados contextos transforma-se em identidade. E quando uma posição política passa a definir completamente a forma como enxergamos o outro, o diálogo começa a desaparecer.
É nesse ponto que o jornalismo enfrenta um dos seus maiores desafios. A disseminação de fake news, conteúdos manipulados, informações fora de contexto e discursos sensacionalistas tornou a checagem ainda mais necessária. O jornalista não pode trabalhar apenas com aquilo que circula nas redes sociais ou com aquilo que confirma a expectativa do público. A responsabilidade jornalística está justamente em investigar, contextualizar, confrontar informações e apresentar ao leitor elementos que permitam uma compreensão mais ampla dos fatos.
Mas existe uma contradição importante. Ao mesmo tempo em que nunca tivemos tanta informação disponível, também nunca foi tão fácil compartilhar algo sem verificar sua origem. A velocidade das redes sociais favorece a reação imediata, enquanto o jornalismo exige apuração. Entre o impulso de compartilhar e a responsabilidade de informar existe uma diferença fundamental. É nessa distância que muitas vezes a desinformação encontra espaço.
O cenário político de 2026 mostra uma sociedade mobilizada, com novas candidaturas, diferentes trajetórias políticas, disputas por representatividade e permanência de grupos tradicionais. Há renovação em determinados espaços e continuidade em outros. Existem diferentes bandeiras, interesses e projetos de país disputando a atenção do eleitor. O problema não está na existência dessas diferenças. O problema começa quando a divergência deixa de ser política e passa a ser tratada como uma ameaça pessoal.
Já vimos discussões políticas provocarem rompimentos familiares, afastamento entre amigos, conflitos nas redes sociais e ataques públicos. Artistas, jornalistas, influenciadores e cidadãos comuns passaram a ser cobrados por seus posicionamentos políticos. Em muitos casos, parece não bastar discordar de uma ideia. É preciso desqualificar quem a defende. Essa transformação do adversário político em inimigo social é um dos aspectos mais preocupantes da polarização brasileira.
Precisamos fazer uma pergunta incômoda: estamos realmente debatendo política ou apenas tentando provar que estamos certos? A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Pelo contrário, ela depende da existência do conflito de ideias. O que não pode ser normalizado é a incapacidade de conviver com a diferença. Uma sociedade democrática precisa saber discordar sem transformar toda divergência em uma guerra.
Talvez não seja possível, nem desejável, acabar com a polarização política. Diferenças ideológicas fazem parte da democracia. O que precisamos discutir é o grau de intolerância que essa polarização produz. O Brasil precisa de cidadãos mais críticos, mas também de cidadãos mais dispostos a ouvir. Precisa de imprensa responsável, mas também de leitores capazes de questionar aquilo que recebem. Precisa de política, mas não de uma política transformada em torcida organizada.
A pergunta que fica é simples, mas necessária: será que ainda conseguimos diminuir a polarização sem diminuir a importância da política? Talvez o caminho não esteja em fazer todos pensarem igual, mas em recuperar uma capacidade que parece cada vez mais rara: conversar com quem pensa diferente sem abandonar os próprios princípios.
E você, qual é a sua opinião sobre este cenário? Deixe seu comentário nas redes sociais do Jornal Mais Minas e participe desta conversa. Compartilhe também este artigo da coluna Prosa & Opinião com uma pessoa que possa se interessar pelo tema. Afinal, uma boa reflexão não termina quando o texto acaba: ela continua quando começa o diálogo.
Um abraço,
Lourenzo.


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