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CÂMARA DE MARIANA

Alta do frete marítimo leva Itaminas a dar férias coletivas a 300 trabalhadores em Minas Gerais

Paralisação parcial está prevista para outubro, com retomada das atividades em novembro

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org

A Itaminas vai conceder férias coletivas a cerca de 300 funcionários e interromper temporariamente parte da produção de minério de ferro em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A medida está prevista para outubro, com retomada das atividades em novembro, e ocorre em meio à forte alta do custo do transporte marítimo para exportação.

A maior parte dos trabalhadores atingidos atua no beneficiamento. A paralisação alcançará uma das quatro plantas da companhia e também será aproveitada para manutenção e modernização da estrutura. Segundo informações divulgadas pela empresa, os estoques existentes são suficientes para o período em que parte da produção permanecerá suspensa.

O cenário mostra como fatores externos à mina podem alterar rapidamente a operação de uma empresa fortemente dependente das exportações. A Itaminas tem capacidade para produzir cerca de 9 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, destina aproximadamente 90% da produção ao exterior e havia produzido 6,2 milhões de toneladas até agosto.

Frete chegou perto de US$ 42 por tonelada

A pressão está principalmente no transporte entre Brasil e Ásia. O frete de navios Capesize na rota entre o Brasil e Qingdao, na China, chegou a US$ 40,72 por tonelada no início de setembro, aproximadamente o dobro de níveis considerados normais por analistas ouvidos pela Reuters. Dados de mercado apontaram ainda US$ 41,55 por tonelada em 4 de setembro.

O impacto ganha dimensão quando comparado aos demais componentes da operação. A tonelada do minério estava sendo negociada próxima de US$ 100, enquanto o custo de produção informado para a Itaminas fica entre US$ 21 e US$ 23 por tonelada. Assim, somente o frete chegou a corresponder a cerca de 40% do preço da commodity.

A empresa já havia apontado em junho que o frete marítimo e o câmbio estavam entre os desafios para 2026. O transporte ganhou ainda mais peso nos últimos meses em um ambiente internacional marcado pelas tensões no Oriente Médio.

A situação não atingiu somente a Itaminas. A Usiminas suspendeu temporariamente, no início de setembro, as operações da planta de minério de ferro de Samambaia, em Itatiaiuçu. A companhia também relacionou a decisão aos preços do minério e ao aumento expressivo dos custos de frete.

Empresa começou a operar em Sarzedo em 1959

A história da Itaminas em Sarzedo começou há mais de seis décadas. A companhia foi fundada em 1958 e iniciou as operações no município em 1959. Em 2002, ampliou as atividades com instalações para beneficiamento de finos por processos magnéticos e aproveitamento de materiais existentes em antigas pilhas. Três anos depois, segundo o histórico da própria mineradora, passou a utilizar tecnologia para recuperação de material de barragens destinado à produção de concentrado de minério de ferro.

Nos últimos anos, a empresa voltou a ampliar sua produção. Em 2024, alcançou cerca de 8 milhões de toneladas e passou a trabalhar com a perspectiva de chegar a aproximadamente 8,5 milhões.

Um passo importante para aumentar a presença no mercado externo ocorreu em 2025, quando a Itaminas firmou parceria com o Porto Sudeste, em Itaguaí, no Rio de Janeiro, para exportar diretamente até 4 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.

China ajuda a explicar exposição das mineradoras brasileiras

A situação da Itaminas ocorre dentro de um setor especialmente sensível à economia internacional. O minério de ferro é negociado em dólar e seu desempenho depende de variáveis que vão da atividade industrial chinesa ao câmbio brasileiro, passando pelo preço internacional da commodity e pelo custo dos navios.

A China ocupa posição central nessa relação. No primeiro trimestre de 2026, o país respondeu por 66% do volume das exportações minerais brasileiras, enquanto o minério de ferro representou 53,9% das vendas externas do setor.

Em 2025, o Brasil exportou 416,3 milhões de toneladas de minério de ferro, movimentando US$ 28,98 bilhões. O volume cresceu 7,1% em relação a 2024, mas o preço médio caiu 9,4%. Como consequência, mesmo vendendo mais minério, o país recebeu 3% menos em dólares.

O comportamento ajuda a mostrar a exposição das mineradoras às oscilações internacionais. Uma empresa pode aumentar a produção e vender mais toneladas sem obter crescimento equivalente de receita se o preço internacional cair. Se, ao mesmo tempo, o frete subir, a diferença entre o valor recebido pela tonelada e os custos para produzi-la e entregá-la ao comprador diminui.

Para empresas de médio porte, essa equação pode ser ainda mais sensível pela menor escala logística. No caso da Itaminas, aproximadamente nove em cada dez toneladas produzidas são destinadas ao mercado externo.

Câmbio também interfere na conta

O dólar é outra variável relevante. Como o minério é negociado internacionalmente na moeda americana, uma valorização do real pode reduzir, em reais, o valor obtido com uma mesma receita em dólares. Uma desvalorização do real tende a produzir o movimento inverso sobre a receita convertida, embora também possa elevar custos de equipamentos, insumos e contratos vinculados à moeda estrangeira.

No primeiro semestre de 2026, a mineração respondeu por US$ 20,3 bilhões do superávit comercial brasileiro, equivalente a 48% do saldo positivo de toda a balança comercial do país. O minério de ferro respondeu por 53,6% das exportações minerais no período.

Os números mostram que a relação funciona nos dois sentidos. As condições da economia mundial afetam as mineradoras brasileiras e, pelo peso das exportações minerais, o desempenho dessas empresas também tem efeito relevante sobre as contas externas do Brasil.

Os dados mais recentes do Ministério do Desenvolvimento mostram que, em agosto, o Brasil exportou 37,2 milhões de toneladas de minério de ferro, com receita de US$ 2,35 bilhões. Em relação a agosto de 2025, houve quedas de 6,7% no volume e de 10,8% no valor exportado.

Paralisação ocorre durante ciclo de expansão

A interrupção de outubro não significa, até o momento, abandono dos projetos de crescimento da Itaminas. Em junho, a companhia informou que planejava investir entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões em 2026, depois de aproximadamente R$ 300 milhões aplicados em 2025. Os aportes fazem parte de um plano de R$ 1,5 bilhão entre 2024 e 2033.

Os investimentos buscam aumentar o volume produzido e melhorar a qualidade do minério de Sarzedo. A própria empresa mantém projeto para expansão da capacidade de produção.

A pausa prevista para outubro, portanto, ocorre em meio a duas situações distintas. No curto prazo, a alta do transporte marítimo reduziu a atratividade das exportações e levou ao acúmulo de estoques. Para os próximos anos, a companhia continua com projetos de expansão e modernização.

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

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