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Como a série “O Senhor das Moscas” resignifica a solidão de Piggy com lampejos do passado

Foto de Rodolpho Bohrer
comunicacao@maisminas.org

A série de O Senhor das Moscas não é apenas uma transposição do romance de William Golding; é uma ressignificação dolorosa da solidão de Piggy.

Poucas adaptações ousaram tanto ao mexer na ordem simbólica de um clássico quanto a nova série da BBC baseada em “O Senhor das Moscas”. Por décadas, a obra de William Golding permaneceu referência para quem deseja estudar a degradação social disfarçada de conto juvenil. Mas a minissérie roteirizada por Jack Thorne propõe algo raro: olhar de perto para aquele que sempre foi objeto de piedade ou escárnio. Piggy, o menino quase anônimo, ganha lampejos de origem e, em cada fragmento de memória, uma dose insuspeita de humanidade.

Esse gesto de aproximação não está restrito apenas ao protagonista improvável. O roteiro reconhece que adaptar um livro que se tornou arquétipo é, antes de tudo, entender que cada personagem foi, um dia, criança com nome e afetos. A televisão, por seu próprio formato, exige rostos, vozes e silêncios distintos — e Jack Thorne compreendeu que reproduzir apenas o horror coletivo seria repetir, sem releitura, o gesto de Golding. O diferencial está em reencenar o trauma pela via do particular, costurando memórias visuais que saltam entre o agora insular e o outrora familiar.

Piggy, que por vezes resumiu-se ao papel do pária gordo e vulnerável, não é humanizado artificialmente na série. Em vez de conceder-lhe uma trajetória expositiva, Thorne opta por sussurrar detalhes. Os flashbacks que surgem — nunca extensos ou explicativos — desenham a periferia de uma infância, deixando entrever, por exemplo, a afetividade com figuras adultas ausentes, pequenos medos cotidianos e a persistente sensação de inadequação. Ao centro da ilha, Piggy já é solitário; mas o que a série faz é atestar que a solidão não começou ali, diante da selva, e sim muito antes, num ambiente que nenhuma criança deveria evitar: o lar.

Nas escolhas visuais, a minissérie se destaca por não recorrer ao sentimentalismo fácil. A fotografia mantém Piggy quase sempre separado dos demais por linhas de árvore ou variações na luz natural. Em momentos pontuais, a câmera parece hesitar, como se quisesse pedir permissão antes de adentrar suas recordações. Esses recursos naturais de distanciamento e aproximação, combinados com diálogos contidos, sustentam a ambiguidade entre o menino e o símbolo — e contam, em silêncio, a negação da pertença. É por meio desse olhar, nem objetivo, nem meramente compadecido, que Piggy ganha dimensão impossível de ser quantificada apenas pelo texto original.

Por trás desses detalhes, há uma consideração ética e estética sobre o ato de adaptar. Quando questionado, Jack Thorne afirmou não temer modificar as bordas do romance; porém, sempre buscou preservar aquilo que tornava a história impossível de ser ignorada (fonte: Omelete). Ao introduzir pequenos flashes do cotidiano desses meninos antes do desastre, Thorne não empresta-lhes biografias completas, mas assume que até o anonimato esconde vidas autônomas. Isso é especialmente verdadeiro em relação a Piggy, que carrega nos olhos — e no seu velho par de óculos, instrumento de sobrevivência e marca de diferença — a impressão de ter sido, durante toda a vida, alguém entre parênteses.

O impacto dessa abordagem vai além do personagem título dessas linhas. Ralph, por exemplo, não aparece apenas como aspirante a líder; também lhe é conferida solitude e ansiedade nas cenas em que corre sozinho por um campo, distante da algazarra e das expectativas. Ao articular breves encontros entre passado e presente, a série propõe que o trauma da ilha magnifica, mas não inicia, as feridas emocionais desses jovens. São detalhes — um olhar perdido, a busca por um objeto familiar, a hesitação antes de falar — que modificam cada ação subsequente de modo mais profundo do que monólogos internos poderiam alcançar.

O flashback, nessa versão, emerge como antídoto para a uniformidade. Mesmo personagens coadjuvantes, nunca nomeados ou aprofundados no livro, ganham instantes de suspiro e pavor, evidenciando o mosaico de infâncias distintas interrompidas por um acidente coletivo. Nesse sentido, os lampejos são hábeis tanto no que mostram quanto no que resguardam: jamais contamos a história completa. Isso impede que a adaptação se torne explicativa demais, ou descarte a principal virtude de Golding — o poder do não-dito.

Visualmente, a diferença fica nítida no contraste entre a paleta desbotada dos flashbacks — tons suaves e bordas desfocadas — e a intensidade da luz direta na ilha, que jamais poupa imperfeições. Limitar a passagem entre as temporalidades à sugestão, em vez de circuitos narrativos contínuos, é uma escolha que sublinha a opacidade da memória e recusa a construção de uma psicologia simplificada.

Flashbacks como reverência e reapropriação

Nos editorialmente calculados flashbacks — cenas curtas, quase imagens isoladas —, a série permite uma inscrição tênue da infância desses garotos. Piggy, que no livro conversa com concha e óculos, ganha rosto e traços de vulnerabilidade que se estenderam além da ilha. Vale recordar que, no romance, Golding se abstém de revelar muito de seu passado — e essa ausência é parte do poder simbólico da obra.

Thorne, entretanto, não vira as costas para esse legado; ele apenas mexe num ponto específico. Ralph, por exemplo, aparece brevemente correndo sozinho num campo, o que sugere medo e solidão além da urgência coletiva. Esses flashes, por sua economia e carga emocional, amplificam o presente sem disputar com o texto original, e sim dialogar com ele, silenciosamente.

É possível ler esse recurso como uma reapropriação simbólica: a série assume que os personagens não são “tipo”, mas pessoas que vieram de algum lugar e levam dentro de si histórias por contar. Essa escolha, dramatúrgica e ética, é o que transforma uma minissérie compacta em um experiência emocional mais densa que o livro por si só oferecia.

Pode-se argumentar que essa estratégia sabe bem onde tocar: não precisamos de monólogos internos nem de exposições claras — basta saber que Piggy teve um dia comum antes da ilha, que também tinha medo de perder alguém. E isso, de forma quase silenciosa, ressignifica toda a leitura da história.

Na perspectiva da crítica estrangeira, a série foi recebida com surpresa pelo modo íntimo ao abordar figuras historicamente secundárias, ainda que Golding nunca tenha deixado de sugerir complexidade. Reportagens do Omelete destacam não só a longevidade maior de Piggy na trama, mas o esforço em lhes conceder lampejos de alma, algo raríssimo nas adaptações anteriores (fonte: Omelete). Esses pequenos gestos narrativos foram lidos tanto como contraponto ao brutalismo da experiência na ilha quanto como uma tentativa, bem-sucedida, de alinhar o clássico a debates contemporâneos sobre subjetividade, empatia e trauma infantil.

Mais que atenuar a violência, a minissérie questiona: o que há de coletivo, e o que há de irremediavelmente pessoal, numa queda para a barbárie? A resposta — ou a recusa dela — traduz-se em cada plano em que Piggy vagueia solitário, tocando nos próprios óculos e recordando, sem palavras, uma mãe, um lar, um desejo de aceitação. Ao preservar a opacidade do passado, mas garantir que ele permaneça visível em flashes, a série reforça o mistério central da obra sem sacrificar a humanidade dos personagens — e, ao fazer isso, reabilita o próprio Piggy como sujeito de sua dor e esperança.

O que emerge, então, da soma desses detalhes é um novo pacto de leitura: Piggy não é apenas mártir, nem síntese de fragilidade inútil. Ele torna-se contorno de tantas infâncias marginalizadas que a literatura clássica relegou ao plano do exemplo, jamais ao do protagonista. Sob o olhar de Thorne e da televisão britânica, Piggy ressurge como menino real, marcado e resiliente, e sua história — ou o pouco dela que nos é dado ver — muda para sempre as possibilidades do mito que Golding criou.

Nessa moldura, a adaptação escapa do ciclo vicioso de veneração ou de repetição acrítica do texto-fonte. O Senhor das Moscas renasce, pelo olhar de Piggy, como tragédia íntima de sobreviventes com passados indizíveis. E a televisão, ao recusar respostas fáceis ou transformações totais, faz talvez o gesto mais radical: permite que ainda sintamos medo por esses meninos, mesmo conhecendo o destino de todos eles.

A adaptação televisiva de O Senhor das Moscas inicia uma conversa nova com o clássico ao devolver às crianças sua urgência íntima — em especial Piggy, cuja história é um sopro de humanidade entre gritos e conflitos. Thorne não apenas adapta Golding, ele o complementa com compaixão. O resultado é uma releitura que amplia, e nunca contradiz, a força simbólica do original.

Fontes Consultadas

Sobre o autor Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

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