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CÂMARA DE MARIANA
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Rodolpho Bohrer comunicacao@maisminas.org

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).

Votação de Ana Elisa (PT) em MG indica demanda reprimida na esquerda por novos rostos e modos de fazer política

Publicado em 05/10/2026 às 03:25

Ana Elisa tem 21 anos, nunca havia disputado uma eleição e acaba de receber 524.219 votos para deputada federal em Minas Gerais. Ficou em segundo lugar entre todos os candidatos do estado, atrás somente de Nikolas Ferreira, que ultrapassou a marca de 3,1 milhões. Dentro do PT, ninguém chegou perto dela.

O tamanho dessa votação fica ainda mais evidente quando olhamos para quem veio depois. Duda Salabert recebeu 229.535 votos, Reginaldo Lopes, 215.192, e Rogério Correia, 185.912. Ana Pimentel teve 144.496, Gleide Andrade, 130.253, e Paulo Guedes, 126.974.

Sozinha, Ana Elisa recebeu mais votos que Reginaldo Lopes, Rogério Correia e Paulo Guedes somados. E fez isso aos 21 anos, sem mandato anterior e sem uma carreira construída dentro da estrutura partidária.

É cedo para saber o que Ana Elisa será como parlamentar. Uma votação expressiva não é atestado de competência legislativa e popularidade nas redes sociais não substitui trabalho político. Mas seria um erro olhar para mais de meio milhão de votos e reduzir o resultado a um fenômeno de internet.

Antes de entrar para o PT, Ana Elisa já havia construído uma audiência relevante nas redes sociais. Mineira de Divinópolis, estudante de Direito e ex-estagiária do Tribunal Regional do Trabalho, ganhou projeção produzindo conteúdo político e falando sobre temas como racismo, feminismo, jornada 6×1 e desinformação. Sua entrada no PT ocorreu apenas em 2026, depois de uma passagem pelo PV.

O mais interessante é que ela chegou ao partido questionando justamente uma de suas maiores dificuldades. Durante a campanha, cobrou mais espaço para a geração Z e defendeu uma legenda capaz de dialogar melhor com jovens que muitas vezes não se enxergam nas figuras tradicionais da política.

As urnas deram algum fundamento a essa cobrança.

Não significa que 524 mil mineiros tenham votado nela porque desejam renovar o PT, muito menos que exista uma explicação única para o resultado. Eleições são mais complexas. Pesam identificação partidária, exposição, campanha, conjuntura, redes sociais e até a capacidade de uma candidatura ocupar um espaço que seus concorrentes deixaram vazio.

Ainda assim, é difícil acreditar que seja apenas coincidência uma candidata de 21 anos, em sua primeira eleição, conseguir mais que o dobro da votação de nomes conhecidos e deixar praticamente toda a velha guarda de seu campo político para trás.

E o cenário mineiro torna esse resultado ainda mais interessante.

Cleitinho venceu a eleição para governador no primeiro turno. Nikolas Ferreira recebeu 3.119.318 votos para deputado federal, mais de seis vezes a votação de Ana Elisa. São resultados que mostram uma força eleitoral muito maior da direita mineira e impedem qualquer interpretação precipitada de que o desempenho da petista represente uma mudança ideológica do estado.

Mas Cleitinho e Nikolas também oferecem uma pista sobre outra transformação que já estava diante dos partidos havia algum tempo.

Os dois construíram parte importante de sua força política falando diretamente com o público, sem depender exclusivamente das estruturas tradicionais de comunicação partidária. Desenvolveram linguagem própria, personagens políticos facilmente identificáveis e comunidades que acompanham seu conteúdo muito antes do período eleitoral.

A direita percebeu cedo que as redes sociais poderiam ser muito mais do que um lugar para publicar agenda, recortar entrevistas e impulsionar propaganda eleitoral. Elas poderiam ser o próprio espaço de formação de uma base política.

Durante muito tempo, parte da esquerda pareceu observar esse fenômeno como se ele fosse uma característica particular da direita. O resultado de Ana Elisa sugere que não é.

Isso não significa procurar uma “Nikolas Ferreira de esquerda”. Seria provavelmente a pior conclusão possível. Nem significa transformar todo jovem com muitos seguidores em candidato. Política não pode ser reduzida a engajamento, visualizações e capacidade de viralizar.

O que a votação de Ana Elisa coloca em discussão é outra coisa.

Existe um eleitorado de esquerda disposto a votar em gente que não passou décadas percorrendo o caminho tradicional até conquistar espaço dentro de um partido. Gente que chega com outra linguagem, outras referências e uma relação diferente com o público.

A idade ajuda a explicar isso, mas não explica tudo. Existem milhares de jovens tentando construir audiência política na internet. Pouquíssimos recebem meio milhão de votos.

Ana Elisa não parece uma política tradicional tentando aprender a falar com jovens. Ela pertence à geração com a qual conversa. Não precisou transformar discurso parlamentar em vídeo vertical, descobrir tendências do TikTok ou contratar alguém para ensinar como se comportar diante da câmera. Sua trajetória política começou nesse ambiente.

Pode parecer uma diferença pequena. Eleitoralmente, talvez não seja.

Partidos de esquerda possuem quadros experientes que continuam tendo eleitorado e importância política. Renovação não exige jogar fora essa experiência. O problema aparece quando a experiência passa a funcionar como barreira de entrada e os mesmos nomes ocupam indefinidamente os espaços mais competitivos.

O resultado de Minas oferece ao PT uma oportunidade rara de observar isso em números.

Reginaldo Lopes, Rogério Correia, Paulo Guedes e outros políticos conhecidos continuarão tendo papel importante no partido. Mas nenhum deles pode ignorar que uma jovem que chegou há pouco tempo recebeu centenas de milhares de votos a mais.

Também não é possível saber se Ana Elisa conseguirá conservar esse eleitorado. A Câmara dos Deputados é um ambiente completamente diferente das redes sociais. A partir de 2027, ela terá de transformar popularidade em atuação parlamentar, assumir posições em votações concretas, lidar com negociações e responder pelas escolhas que fizer. É nesse momento que começa outra avaliação.

O que já pode ser avaliado é a eleição.

Enquanto Cleitinho vence Minas no primeiro turno e Nikolas Ferreira passa dos 3 milhões de votos, uma candidata petista de 21 anos aparece com mais de meio milhão e se torna a segunda mais votada para a Câmara no estado.

A direita mineira continua eleitoralmente muito forte. Isso torna o desempenho de Ana Elisa mais significativo, e não menos.

Talvez exista na esquerda um público que não esteja procurando abandonar suas ideias, mas que esteja cansado de encontrá-las sempre apresentadas pelas mesmas pessoas, com os mesmos códigos e pelas mesmas estruturas.

Os 524.219 votos de Ana Elisa não provam sozinhos essa tese. Mas são um sinal grande demais para ser ignorado.

Para uma esquerda que há anos discute como voltar a conversar com os jovens e disputar espaço político nas redes sociais, a resposta pode estar menos em aprender novas técnicas de comunicação e mais em permitir que uma nova geração finalmente tenha espaço para falar por si própria.

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