Um aumento real de 15% no valor do Bolsa Família poderia retirar cerca de 1,3 milhão de brasileiros da extrema pobreza, segundo estudo elaborado pelo professor Vitor Hugo Miro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2025. A simulação aponta que a proporção de pessoas em extrema pobreza cairia de 4,61% para 4,01% da população caso o reajuste fosse aplicado.

O levantamento coloca novamente no centro do debate o papel dos programas de transferência de renda no combate à pobreza. A análise considera famílias que recebem o Bolsa Família e simula o efeito de um aumento de 15% acima da inflação, mantendo as demais condições da população e as regras do programa constantes.
Segundo o estudo, aproximadamente 1,25 milhão de pessoas que vivem com renda de até R$ 775 mensais também poderiam ultrapassar a linha de pobreza considerada na análise. O impacto seria maior nas regiões Norte e Nordeste, onde o programa possui elevada cobertura.
Como surgiu o Bolsa Família
O Bolsa Família foi criado em 2003, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A Medida Provisória nº 132, de outubro daquele ano, instituiu o programa, que posteriormente foi transformado na Lei nº 10.836, sancionada em janeiro de 2004.
A criação não ocorreu a partir do zero. O programa reuniu iniciativas de transferência de renda que já existiam, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação e Auxílio-Gás. A unificação buscou concentrar os benefícios em uma estrutura nacional, utilizando também o Cadastro Único para identificar as famílias de baixa renda.
Além da transferência de dinheiro, o modelo foi estruturado com condicionalidades relacionadas principalmente à saúde e à educação. Ao longo dos anos, o programa passou por ampliações, alterações nos valores dos benefícios e mudanças nos critérios de atendimento, tornando-se uma das principais políticas de transferência de renda do país.
Bolsonaro substituiu programa por Auxílio Brasil
A trajetória do Bolsa Família mudou durante o governo de Jair Bolsonaro. Em 2021, a Lei nº 14.284 criou o Auxílio Brasil e revogou a legislação que instituía o Bolsa Família. Na prática, o novo programa passou a ocupar o lugar da política criada em 2003.
A mudança ocorreu em um período marcado pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia de Covid-19. O governo também ampliou os valores pagos às famílias beneficiárias, enquanto o programa passou a ter outra estrutura e denominação.
No mesmo período, o Brasil voltou a aparecer no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O indicador, porém, não deve ser atribuído exclusivamente a uma política ou a um presidente: a FAO calcula a prevalência de subalimentação como uma média de três anos.
Segundo os dados da organização, o Brasil permaneceu abaixo do limite de 2,5% até o triênio 2018–2020, mas chegou a 3,9% no período 2019–2021 e a 4,2% em 2020–2022. É a partir desses indicadores que o país voltou a ser considerado dentro do Mapa da Fome.
Lula retoma o Bolsa Família
Com o retorno de Lula à Presidência, o Bolsa Família foi novamente adotado como nome e estrutura principal do programa. Em março de 2023, o governo federal substituiu oficialmente o Auxílio Brasil pelo Bolsa Família.
A retomada ocorreu junto a outras medidas de combate à fome e à pobreza, incluindo o Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023. A estratégia reuniu ações de diferentes áreas do governo com o objetivo de ampliar a segurança alimentar e reduzir a vulnerabilidade econômica da população.
O movimento também coincidiu com uma melhora nos indicadores de segurança alimentar. Em 2025, a FAO registrou que a média de subalimentação do Brasil no triênio 2022–2024 ficou abaixo de 2,5%, fazendo o país sair novamente do Mapa da Fome. Em 2026, o relatório da organização confirmou que o Brasil permaneceu fora do mapa no triênio 2023–2025.
A própria metodologia da FAO exige cautela na comparação entre governos. A saída registrada em 2014, por exemplo, foi resultado de uma redução acumulada da subalimentação ao longo de anos e foi contabilizada no triênio 2011–2013, já durante o governo Dilma Rousseff. Da mesma forma, a entrada registrada posteriormente corresponde a médias de períodos que atravessam diferentes anos.
Reajuste pode ampliar alcance do benefício
O estudo que motivou a análise aponta que elevar o valor pago às famílias teria efeito direto sobre os indicadores de pobreza. Na simulação, o reajuste de 15% permitiria que parte dos beneficiários ultrapassasse as linhas de extrema pobreza e pobreza consideradas pelo levantamento.
A pesquisa também chama atenção para a necessidade de atualização dos critérios de acesso ao programa. Segundo o professor Vitor Hugo Miro, manter congelada a renda máxima utilizada para definir quem pode ingressar no Bolsa Família pode fazer com que a inflação reduza, ao longo do tempo, o número de famílias efetivamente alcançadas pela política.
O levantamento, portanto, não representa uma previsão de que o governo realizará um novo reajuste, mas uma simulação do impacto que uma elevação real de 15% poderia produzir sobre os indicadores sociais. A análise reforça o peso que programas de transferência de renda podem ter na composição da renda das famílias mais vulneráveis e no enfrentamento da pobreza extrema.







Comentários
Contribua com informações, contexto e opiniões sobre a notícia. Mantenha o respeito aos demais leitores.
Comentar como visitanteSem criar uma conta⌄