quarta-feira, 7 de outubro de 2026 Jornalismo independente de Minas Gerais
Siga o Mais Minas
CÂMARA DE MARIANA

Bolsa Família pode tirar 1,3 milhão da extrema pobreza com reajuste de 15%, aponta estudo

Simulação baseada em dados do IBGE indica redução da extrema pobreza; programa criado em 2003 passou por mudanças no governo Bolsonaro e foi retomado por Lula em 2023

Foto de Carlos Daniel
Carlos.daniel_9@hotmail.com
SAMARCO AGOSTO

Um aumento real de 15% no valor do Bolsa Família poderia retirar cerca de 1,3 milhão de brasileiros da extrema pobreza, segundo estudo elaborado pelo professor Vitor Hugo Miro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2025. A simulação aponta que a proporção de pessoas em extrema pobreza cairia de 4,61% para 4,01% da população caso o reajuste fosse aplicado.

O levantamento coloca novamente no centro do debate o papel dos programas de transferência de renda no combate à pobreza. A análise considera famílias que recebem o Bolsa Família e simula o efeito de um aumento de 15% acima da inflação, mantendo as demais condições da população e as regras do programa constantes.

Segundo o estudo, aproximadamente 1,25 milhão de pessoas que vivem com renda de até R$ 775 mensais também poderiam ultrapassar a linha de pobreza considerada na análise. O impacto seria maior nas regiões Norte e Nordeste, onde o programa possui elevada cobertura.

Como surgiu o Bolsa Família

O Bolsa Família foi criado em 2003, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A Medida Provisória nº 132, de outubro daquele ano, instituiu o programa, que posteriormente foi transformado na Lei nº 10.836, sancionada em janeiro de 2004.

A criação não ocorreu a partir do zero. O programa reuniu iniciativas de transferência de renda que já existiam, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação e Auxílio-Gás. A unificação buscou concentrar os benefícios em uma estrutura nacional, utilizando também o Cadastro Único para identificar as famílias de baixa renda.

Além da transferência de dinheiro, o modelo foi estruturado com condicionalidades relacionadas principalmente à saúde e à educação. Ao longo dos anos, o programa passou por ampliações, alterações nos valores dos benefícios e mudanças nos critérios de atendimento, tornando-se uma das principais políticas de transferência de renda do país.

Bolsonaro substituiu programa por Auxílio Brasil

A trajetória do Bolsa Família mudou durante o governo de Jair Bolsonaro. Em 2021, a Lei nº 14.284 criou o Auxílio Brasil e revogou a legislação que instituía o Bolsa Família. Na prática, o novo programa passou a ocupar o lugar da política criada em 2003.

A mudança ocorreu em um período marcado pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia de Covid-19. O governo também ampliou os valores pagos às famílias beneficiárias, enquanto o programa passou a ter outra estrutura e denominação.

No mesmo período, o Brasil voltou a aparecer no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O indicador, porém, não deve ser atribuído exclusivamente a uma política ou a um presidente: a FAO calcula a prevalência de subalimentação como uma média de três anos.

Segundo os dados da organização, o Brasil permaneceu abaixo do limite de 2,5% até o triênio 2018–2020, mas chegou a 3,9% no período 2019–2021 e a 4,2% em 2020–2022. É a partir desses indicadores que o país voltou a ser considerado dentro do Mapa da Fome.

Lula retoma o Bolsa Família

Com o retorno de Lula à Presidência, o Bolsa Família foi novamente adotado como nome e estrutura principal do programa. Em março de 2023, o governo federal substituiu oficialmente o Auxílio Brasil pelo Bolsa Família.

A retomada ocorreu junto a outras medidas de combate à fome e à pobreza, incluindo o Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023. A estratégia reuniu ações de diferentes áreas do governo com o objetivo de ampliar a segurança alimentar e reduzir a vulnerabilidade econômica da população.

O movimento também coincidiu com uma melhora nos indicadores de segurança alimentar. Em 2025, a FAO registrou que a média de subalimentação do Brasil no triênio 2022–2024 ficou abaixo de 2,5%, fazendo o país sair novamente do Mapa da Fome. Em 2026, o relatório da organização confirmou que o Brasil permaneceu fora do mapa no triênio 2023–2025.

A própria metodologia da FAO exige cautela na comparação entre governos. A saída registrada em 2014, por exemplo, foi resultado de uma redução acumulada da subalimentação ao longo de anos e foi contabilizada no triênio 2011–2013, já durante o governo Dilma Rousseff. Da mesma forma, a entrada registrada posteriormente corresponde a médias de períodos que atravessam diferentes anos.

Reajuste pode ampliar alcance do benefício

O estudo que motivou a análise aponta que elevar o valor pago às famílias teria efeito direto sobre os indicadores de pobreza. Na simulação, o reajuste de 15% permitiria que parte dos beneficiários ultrapassasse as linhas de extrema pobreza e pobreza consideradas pelo levantamento.

A pesquisa também chama atenção para a necessidade de atualização dos critérios de acesso ao programa. Segundo o professor Vitor Hugo Miro, manter congelada a renda máxima utilizada para definir quem pode ingressar no Bolsa Família pode fazer com que a inflação reduza, ao longo do tempo, o número de famílias efetivamente alcançadas pela política.

O levantamento, portanto, não representa uma previsão de que o governo realizará um novo reajuste, mas uma simulação do impacto que uma elevação real de 15% poderia produzir sobre os indicadores sociais. A análise reforça o peso que programas de transferência de renda podem ter na composição da renda das famílias mais vulneráveis e no enfrentamento da pobreza extrema.

Sobre o autor Carlos Daniel

Natural de Mariana (MG), jornalista formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e apaixonado por futebol. Atua com reportagem, produção audiovisual e criação de conteúdo.

PARTICIPE

Comentários

Contribua com informações, contexto e opiniões sobre a notícia. Mantenha o respeito aos demais leitores.

Comentar como visitanteSem criar uma conta

Seu comentário

Seu e-mail não é publicado e é usado somente para identificação e moderação. O comentário não cria uma conta de usuário no site.

0/4000

Ao enviar, você concorda com a moderação editorial e com a Política de Privacidade do Mais Minas.