O jovem documentarista belo-horizontino Ben-Hur Nogueira, de 24 anos, ganhou destaque em uma reportagem publicada pela NACLA, revista de origem nova-iorquina. Morador do Aglomerado Morro das Pedras, na região Oeste de Belo Horizonte, o cineasta teve sua trajetória, formação artística e produção audiovisual abordadas na publicação, que também apresentou suas reflexões sobre a representação das periferias brasileiras.

Intitulada “An Organic Documentarian Captures His Peoples Stories”, a reportagem apresenta Ben-Hur como um documentarista afro-brasileiro e autodidata, que construiu sua produção a partir das próprias experiências e da vivência na comunidade onde cresceu. O texto destaca ainda a influência de sua família na formação artística e classifica seu trabalho como “profundo, genuíno e cativante”.
A relação de Ben-Hur com a arte começou ainda na infância e teve influência direta dos pais. Segundo o documentarista, sua mãe participou de ocupações de terrenos na região Norte de Belo Horizonte durante a década de 1980, em meio ao período de hiperinflação e transição democrática. Inspirada pelos programas de sobrevivência dos Panteras Negras, ela desenvolveu ações como cozinhas comunitárias, cuidados com crianças e iniciativas de apoio mútuo, atividades que, segundo o filho, continuam fazendo parte de sua atuação.
O pai de Ben-Hur também teve papel importante em sua formação. Ator e integrante de uma companhia de teatro de rua, ele realizava apresentações no centro de Belo Horizonte e era convidado para atuar em diferentes localidades de Minas Gerais. O filho costumava acompanhá-lo nos bastidores dos espetáculos. A experiência despertou o interesse pelo cinema, embora Ben-Hur não tivesse intenção de seguir a carreira de ator.
Produção a partir da própria vivência
Na entrevista à NACLA, Ben-Hur explica como a experiência de crescer na periferia influencia sua maneira de produzir. Ele afirma que viveu em uma sociedade na qual pessoas como ele tinham pouco espaço para serem ouvidas, e passou a enxergar no audiovisual uma possibilidade de contar histórias a partir da perspectiva de quem faz parte daquela realidade.
Essa proposta aparece em “Pandeminas”, documentário que aborda redes de solidariedade e apoio comunitário no Morro das Pedras durante a pandemia. De acordo com o cineasta, o projeto nasceu da vontade de registrar uma realidade que não recebia a mesma atenção nos meios de comunicação naquele período.
Ben-Hur conta que buscou mostrar as iniciativas de coletividade desenvolvidas na comunidade, incluindo o sistema de apoio criado por seus pais e inspirado nos programas de alimentação dos Panteras Negras. A intenção, segundo ele, era não concentrar a narrativa na violência frequentemente associada às periferias, mas registrar a organização e a solidariedade que também marcaram aquele período.
O documentarista define “Pandeminas” como uma carta de amor aos pais e às comunidades periféricas brasileiras. Entre as referências utilizadas no desenvolvimento do projeto, está a filmografia de Eduardo Coutinho, além do filme “A Vez, a Hora de Vassourinha”.
Referências no cinema, na literatura e na música
A formação artística de Ben-Hur reúne referências de diferentes áreas. Entre os nomes citados por ele estão o escritor mineiro Guimarães Rosa, os cineastas Carlos Reichenbach, Pier Paolo Pasolini e Akira Kurosawa.
O documentarista também aponta como influências James Baldwin, Eduardo Coutinho, Caravaggio, Marku Ribas e o movimento cultural Clube da Esquina. A Rádio Favela, o tropicalismo e o neorrealismo italiano também aparecem entre as referências que contribuíram para seu desenvolvimento artístico.
Entre as obras mencionadas por Ben-Hur como importantes para sua formação crítica estão “Macunaíma”, “Sagarana”, trabalhos relacionados a Tavito e “Milagre dos Peixes”. As diferentes referências ajudam a formar a perspectiva utilizada pelo cineasta para abordar memória, identidade e experiências vividas nas comunidades periféricas.
Além de “Pandeminas”, Ben-Hur é responsável pelos documentários “Arrabalde Corsário” e “Andança”. Segundo informações fornecidas pelo cineasta, essas produções foram exibidas em mais de 20 festivais no Brasil e no exterior, além de receberem reconhecimentos e participarem de exibições especiais.
Outro trabalho citado é “Primavera para Pasolini”, uma coprodução entre Brasil e Itália cuja pós-produção foi finalizada em julho deste ano pelo próprio documentarista.
Histórias que vão além da criminalidade
A maneira como as periferias são representadas também ocupa espaço central na entrevista. Ben-Hur questiona a associação recorrente desses territórios à criminalidade e defende que o cinema registre outras dimensões da vida de seus moradores.
Entre os temas que pretende abordar em seus documentários estão herança, nostalgia, redenção, perda e imigração. O cineasta também cita situações cotidianas, como pessoas negras reagindo a fotografias antigas de suas comunidades e mães negras ensinando os filhos a jogar futebol.
Para Ben-Hur, contar essas histórias a partir de dentro permite uma abordagem diferente daquela produzida por quem observa a periferia de fora. Ele afirma que sua produção não parte de uma perspectiva acadêmica, mas de elementos como herança, memória, nostalgia, redenção e perda.
A autonomia também é apontada pelo documentarista como um elemento importante de seu trabalho. Segundo ele, ter liberdade para criar possibilita que as histórias sejam contadas nos próprios termos e a partir das experiências de quem vive naquele contexto.
Desafios para cineastas negros e periféricos
Na entrevista, Ben-Hur também fala sobre os obstáculos encontrados por documentaristas e artistas negros e periféricos. Entre eles estão a falta de oportunidades, distribuição, patrocínio, permissões e recursos para a produção dos filmes.
Para o cineasta, a dificuldade de acesso a oportunidades interfere diretamente na possibilidade de desenvolver projetos e alcançar visibilidade. Ele afirma ainda que artistas afro-brasileiros precisam lidar com um nível elevado de cobrança quando conseguem uma oportunidade, diante do risco de que um erro comprometa novas possibilidades profissionais.
Mesmo diante dessas dificuldades, Ben-Hur pretende continuar utilizando o cinema para registrar experiências que considera pouco exploradas. Sua intenção é ampliar o espaço para histórias relacionadas à memória, ao cotidiano e à identidade das comunidades periféricas.
Ao comentar o destaque recebido pela NACLA, o documentarista relacionou a repercussão ao momento vivido pelo cinema mineiro e ao espaço conquistado por cineastas afrodescendentes e periféricos.
“Ser reconhecido pelo meu trabalho em um veículo estrangeiro reforça o protagonismo do cinema mineiro atual, o potencial das narrativas de cineastas afrodescendentes e periféricos. Tenho orgulho de ser de BH e viver esse período histórico de protagonismo dentro do cinema brasileiro”, afirmou.
A publicação também apresenta Ben-Hur a partir de sua relação com o território onde cresceu e com as referências familiares e artísticas que marcaram sua formação. Com seus documentários, o cineasta busca colocar em evidência personagens e situações do cotidiano das periferias, ampliando as possibilidades de representação desses espaços no cinema brasileiro.







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