O assassinato de Aline Silveira Soares, de 18 anos, completa 25 anos em outubro de 2026 como um dos episódios criminais de maior repercussão da história recente de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais. Encontrada morta em um cemitério da cidade em 14 de outubro de 2001, a jovem apresentava 17 ferimentos provocados por arma branca. As circunstâncias do crime mobilizaram a polícia, a Justiça e a imprensa nacional durante quase uma década, mas não resultaram na identificação judicial de um responsável.

O corpo foi localizado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, durante o período da tradicional Festa do 12, evento que reúne antigos e atuais moradores das repúblicas estudantis de Ouro Preto em comemoração do aniversário da Escola de Minas. Aline havia chegado à cidade três dias antes, acompanhada de uma prima, para participar das comemorações. Moradora de Manhumirim, na Zona da Mata mineira, ela cursava Farmácia e tinha viajado para a cidade histórica durante o feriado.
A forma como o corpo foi encontrado tornou o crime ainda mais conhecido. Segundo os registros da época, a jovem estava sem roupas, com os braços abertos e os pés sobrepostos, em uma posição associada à crucificação. A descrição foi reproduzida em reportagens nacionais e passou a integrar a narrativa pública sobre o assassinato, como mostra a cobertura publicada pela Folha de S.Paulo durante o julgamento de 2009.
As primeiras investigações associaram o homicídio à possibilidade de um ritual envolvendo jogos de interpretação de personagens, conhecidos pela sigla RPG, do inglês Role-Playing Game. A hipótese, inicialmente apresentada pela Polícia Civil e posteriormente sustentada pelo Ministério Público de Minas Gerais, recebeu ampla cobertura jornalística. Entretanto, a ligação entre o jogo e o assassinato não foi comprovada no julgamento.
Uma morte durante a Festa do 12
Naquele ano, as comemorações foram marcadas pela descoberta do corpo da jovem, na manhã de 14 de outubro. Aline estava hospedada com a prima em uma república estudantil e havia participado de atividades festivas antes de desaparecer.
O local do assassinato, um cemitério situado na área histórica de Ouro Preto, e as condições em que a vítima foi encontrada despertaram atenção imediata. Poucos dias depois, a investigação já ocupava espaço na imprensa nacional. Em reportagem publicada em 19 de outubro de 2001, a Folha registrou que a Polícia Civil afirmava ter convicção de que o crime estava relacionado a uma partida de RPG.
A hipótese policial foi amplamente divulgada, embora ainda não houvesse uma definição sobre a autoria do homicídio. A associação entre jogos, supostos rituais e violência contribuiu para que o episódio ultrapassasse os limites de Minas Gerais.
A investigação e a hipótese envolvendo jogos de RPG
Durante a investigação, policiais e integrantes do Ministério Público trabalharam com a possibilidade de que Aline tivesse sido morta durante um ritual. A suspeita envolvia pessoas com quem a jovem havia mantido contato durante a permanência em Ouro Preto.
O RPG é uma modalidade de jogo em que participantes interpretam personagens e constroem narrativas coletivamente, seguindo regras e situações fictícias. A investigação associou elementos encontrados durante as apurações a esse tipo de atividade, mas a existência de jogos ou materiais relacionados a RPG não demonstrava, por si só, participação em um homicídio.
A linha investigativa acabou se tornando um dos aspectos mais controversos do caso. A acusação buscou relacionar o assassinato a práticas ritualísticas, enquanto as defesas questionaram a ausência de provas materiais suficientes para estabelecer a responsabilidade dos suspeitos.
Em dezembro de 2004, mais de três anos depois do crime, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais discutiu o andamento das investigações em Ouro Preto. Na ocasião, conforme registro oficial publicado pela ALMG, a promotora responsável pelo caso informou que novos testemunhos e materiais encontrados nas proximidades do cemitério poderiam contribuir para o esclarecimento do assassinato.
Apesar das expectativas manifestadas durante a apuração, as provas apresentadas posteriormente não foram consideradas suficientes pelo Tribunal do Júri para condenar os acusados.
Quatro pessoas foram levadas a julgamento
O processo criminal chegou ao Tribunal do Júri em julho de 2009, quase oito anos após a morte de Aline. Quatro pessoas respondiam à acusação de envolvimento no assassinato: três jovens que, à época, moravam em uma república estudantil de Ouro Preto e uma prima da vítima.
O julgamento atraiu jornalistas de diferentes veículos e provocou intensa movimentação no município. A Polícia Militar reforçou o policiamento nas proximidades do local das sessões, enquanto familiares, estudantes e moradores acompanhavam os desdobramentos do processo.
Durante os debates, o Ministério Público manteve a hipótese de que o crime teria ocorrido em um ritual associado a RPG. A defesa, por sua vez, contestou a investigação, a interpretação das evidências e a ausência de elementos que individualizassem a participação de cada acusado.
Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo publicada durante o julgamento, a repercussão foi tamanha que houve necessidade de reforço policial e interdição de ruas próximas ao tribunal.
Após aproximadamente 45 horas de julgamento, distribuídas ao longo de cinco dias, os jurados absolveram os quatro acusados. A decisão foi anunciada na madrugada de 5 de julho de 2009.
O Conselho de Sentença concluiu que os réus não haviam concorrido para a prática do crime. A absolvição afastou a responsabilidade penal das quatro pessoas julgadas, mas não esclareceu quem matou Aline.
Justiça manteve as absolvições em 2010
A decisão do Tribunal do Júri não encerrou imediatamente a discussão judicial. O Ministério Público recorreu, buscando a anulação do julgamento.
Em junho de 2010, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a absolvição dos quatro acusados. A relatora do recurso, desembargadora Márcia Maria Milanez, considerou que não haviam sido apresentadas provas contundentes capazes de justificar a anulação do veredicto.
Os desembargadores entenderam que a discordância da acusação em relação à conclusão dos jurados não era suficiente para modificar o resultado.
A manutenção das absolvições consolidou o desfecho judicial daquele processo. Os quatro acusados permaneceram inocentados, e o assassinato continuou sem autoria estabelecida pela Justiça.
A repercussão do caso ultrapassou o julgamento
A história de Aline também se tornou objeto de estudos acadêmicos sobre a relação entre investigação criminal, cobertura jornalística e formação da opinião pública.
Em 2012, a antropóloga Ana Leticia de Fiori defendeu, na Universidade de São Paulo (USP), a dissertação Contando histórias de morte: etnografia do júri e arenas narrativas do caso Aline. A pesquisa examinou como o assassinato passou a ser interpretado a partir de diferentes narrativas, envolvendo festas estudantis, drogas, satanismo e jogos de RPG.
O estudo discute como essas associações influenciaram a percepção pública sobre o crime e as expectativas em relação ao julgamento. Também aborda o papel da imprensa e os conflitos produzidos entre as versões apresentadas pela acusação, pelas defesas e por outros envolvidos.
A repercussão do caso, portanto, ultrapassou a investigação sobre a morte de uma estudante. O episódio passou a integrar discussões sobre os limites das provas criminais, a exposição pública de suspeitos e os efeitos de interpretações construídas antes de uma decisão judicial.
A dor de uma família 25 anos depois
Passadas duas décadas e meia, a ausência de respostas permanece para os familiares de Aline. Em reportagem publicada em 14 de outubro de 2026, o jornal O TEMPO ouviu a mãe da jovem, Maria José Silveira Soares, que continua morando em Manhumirim.
Aos 77 anos, Maria José, conhecida como Zezé, relatou que mantém fotografias da filha em casa e encontra na religião uma forma de conviver com a perda. Na mesma reportagem, familiares e uma amiga de infância recordaram a personalidade de Aline e os planos interrompidos pelo assassinato.
O jornal também procurou a Polícia Civil e o Ministério Público de Minas Gerais. A Polícia Civil informou que não comenta inquéritos concluídos. Já o MPMG reconheceu que perícias fundamentais não foram realizadas durante a fase policial e que algumas só ocorreram anos depois, durante o processo judicial.
Segundo o Ministério Público, a fragilidade das provas teve importância para o resultado do julgamento e para a decisão posterior do Tribunal de Justiça de manter as absolvições.
Em 14 de outubro de 2026, o caso Aline completou 25 anos sem que a Justiça tivesse identificado e responsabilizado o autor do assassinato. Para Ouro Preto, ficou a lembrança de um crime que mobilizou o país e expôs problemas na condução de investigações criminais. Para a família, permanece a ausência de uma jovem que tinha 18 anos quando sua vida foi interrompida.
Referências
1. O TEMPO (14/10/2026) — Há 25 anos, jovem era achada ‘crucificada’ em cemitério de Ouro Preto; crime segue sem resposta. Reportagem com entrevistas com familiares e posicionamentos recentes das autoridades.
2. Folha de S.Paulo (19/10/2001) — Morte de estudante em MG pode ter sido motivada por jogo de RPG. Registro contemporâneo das primeiras investigações.
3. Assembleia Legislativa de Minas Gerais (13/12/2004) — Direitos Humanos cobra solução de crimes em Ouro Preto. Registro institucional das discussões sobre a investigação.
4. Folha de S.Paulo (03/07/2009) — Acusados de matar estudante durante jogo de RPG são julgados. Cobertura das sessões do Tribunal do Júri.
5. Folha de S.Paulo (06/07/2009) — Jovens são absolvidos da morte de estudante. Resultado do julgamento e argumentos apresentados pelas partes.
6. Folha de S.Paulo (09/06/2010) — Justiça mantém sentença que inocentou jovens por morte de estudante em Minas. Decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
7. Universidade de São Paulo (2012) — Contando histórias de morte: etnografia do júri e arenas narrativas do caso Aline, dissertação de Ana Leticia de Fiori.






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